A Ótica Revista entrevistou o Sr. Sergey Cusato Júnior, proprietário da Óptica Tradicional, membro do I.A.C.L.E International Association of Contact Lens Educators, consultor e Especialista em Lentes de Contato e Professor no Instituto Filadélfia. Vamos à entrevista.
OR - Sergey, fale um pouco sobre a sua história na óptica e no setor de lentes de contato.
Sergey - Minha história na óptica começa bem antes do meu nascimento. No início da década de 20 (1920) o óptico Sr. Cândido Cusato, meu bisavô, iniciou-se no ramo óptico. Na época ele trabalhou com o Sr. Jose Antônio Penteado Vignoli da Casa Vignoli, situada na Rua Direita, centro da cidade de São Paulo. A partir daí surgiram várias oportunidades para trabalhar no ramo óptico, "Casas do Óptico", tais como Casa Gomes e Casa Andrade e Silva (Dental).
Na década de 40 (1940) o Sr. Cândido Cusato, que era funcionário do Sr. Andrade e Silva, após muitos anos assumiu a empresa. No dia 03 de Dezembro de 1951 ele começou a fundir blocos de cristal (lente bruta) no fundo da Óptica Foto Roxy, situada na Rua Riachuelo - Centro, que está no mesmo local até hoje. Naquela época o seu filho, o Sr. Walter Adrien Cusato, também óptico, trabalhava no mesmo ramo, só que para aprender. O pai o colocou na "casa" de um colega,"Casa Valentin". Após isso, o filho do Sr. Walter, o Sr. Sergey Roberto Cusato (neto), também trabalhou na Óptica Foto Roxy.
No início da década de 70 (1970) ele vendeu a loja e começou a produzir Bifocais na Indústria Cusato, lente de longe e perto (só trabalhava com lentes de cristal), lentes essas que não podiam ser encontradas nas indústrias, pois eram lentes para todos os tamanhos e tipos de dioptrias (graus) e armações. Após isso a sua especialização mudou, mas no mesmo ramo, começou a produzir máquinas para fabricação de lentes especiais oftálmicas. No ano de 1985 uma das indústrias de bifocais foi vendida para a América Optical (AO Sola).
Mas a indústria de máquinas continuou, começando a fabricar máquinas de fibra óptica para polimento de lentes oftálmicas. No início da década de 90 (1990) o Sergey Roberto Cusato Júnior (bisneto) ingressou na Indústria Cusato e, a partir daí, começou sua especialização no ramo. Da indústria passou para o varejo. Daí em diante,
uma nova história se inicia.
Em, mais ou menos, 1992 comecei minha carreira no setor de lentes de contato e, lendo alguns artigos sobre o assunto, vi a grande oportunidade de me especializar nesse assunto.
OR - Por que uma grande oportunidade?
Sergey - Desde a época do meu avô, escuto muitas histórias do mercado de lentes de contato. Uns dizem por ai que o direito da adaptação de lentes de contato é de um profissional; outros dizem que é de outro. Diante dessa briga toda, percebi uma grande oportunidade: enquanto os profissionais brigavam eu, ainda muito jovem, fui estudar. E comecei a adaptar lentes contato de todos os tipos e marcas.
OR - Sergey, o que você espera desse mercado?
Sergey - O que eu espero? Que mercado? Não existe mercado de lentes de contato. O Brasil é um dos piores
países em se tratando desse assunto. Para você ter uma idéia da gravidade, dos portadores de deficiência
visual, apenas 13% usam lentes de contato. Há 2 anos atrás, esse número chegava a 16%.
Nosso potencial é absurdo e avassalador, e a impressão que tenho é que ninguém enxerga.
OR - Sergey, mas você não acha que lentes de contato dão muito trabalho, por isso as ópticas não dão atenção para esse produto?
Sergey - Realmente, lentes de contato dão mais trabalho do que os óculos. Precisa de profissional adequado, porém são muito mais lucrativas, fidelizam, traz o cliente de 5 a 10 vezes em sua loja. Óculos não fideliza, mas acreditem, ou as ópticas dizem que dão muito trabalho ou realmente não tem gente capacitada. Jeno, não se esqueça, para trabalhar com lentes de contato não basta ter toda grade de graus, de qualquer marca que seja, tem que se fazer os testes mínimos para avaliar se aquela pessoa tem a mínima condição de usar lentes.
OR - Sergey, como você pode afirmar que óculos não fideliza?
Sergey - Simples, quando você vende um óculos, você vende marca e qualquer lojista tem.
OR - Então, por que você acha que lente de contato fideliza tanto?
Sergey - Simples, quando você vende um óculos existem algumas medidas a serem tomadas, para uma boa confecção desses óculos, tais como, ajudar o cliente a escolher o modelo, tirar altura e dnp, pedir as lentes, esperar o óculos ficar pronto e entregar.
Quanto a Lentes de contato, necessita-se de Anaminese; Análise do segmento anterior; Teste de secreção basal; Curvatura de córnea; Avaliação das propriedades do filme lacrimal; Testar as lentes de contato; Ver o melhor monômero de acordo com teste feito; Tirar medidas DHVI, DVIV e FP; Avaliar movimento; Lag; Put; Centragem e Cobertura; Se lentes de contato rígidas fluorograma, etc., e Entregar as lentes.
Não vou citar mais 10 motivos senão a entrevista vai desfocar.
Com isso você tem um cliente para o resto da vida. Ele nunca foi avaliado dessa maneira para uma simples lente de contato. Fora o que ele indica de novos clientes.
OR - Sergey, me parece que todas as empresas de LC vão vender para as ópticas, isso é verdade?
Sergey - Sim, tanto é verdade que eu vendo todas as lentes na minha óptica e de todas as marcas, inclusive a Ciba Vision, Bausch Lomb, Cooper Vision e Johnson & Johnson. Me parece que essas empresas tinham algumas lentes exclusivas para oftalmologistas, mas, eu sempre vendi todas, inclusive as de nova geração silicone hidrogel.
Como eu não sou médico e vendo, acreditem elas não são exclusivas.
OR - Sergey, o que será do futuro desse mercado?
Sergey - Bom Jeno, não sou nenhum adivinho,mas, hoje o mercado óptico está nas mãos de empresários que não conseguem enxergar a rica oportunidade no setor de lentes de contato. Se todos fizessem lentes de contato como se deve fazer, esse mercado cresceria, em 5 anos, 35%. Estou colocando números baixos, pois isso não depende só de mim ou de você e sim de muita gente. Isso representaria um aumento significativo para o mercado brasileiro e usuários mais saudáveis.
OR - Sergey, se esse mercado crescer você não perde. E os outros que fazem esse tipo de trabalho como o seu, também não vão perder? É isso?
Sergey - Jeno, se aumentarmos os usuários de Lentes de Contato no Brasil estamos aumentando o negócio para todos. Quanto mais usuários mais reposição, indicação, e assim o bolo cresce e etc.
OR - Sergey, as ópticas estão habilitadas para prestar esse tipo de serviço que você presta?
Sergey - Claro que não! Se as ópticas estivessem preparadas, o mercado brasileiro não seria tão pequeno e tão vergonhoso perante quase o mundo todo. O que precisa ser feito é uma rápida reformulação nas ópticas, e as mesmas verem o tamanho do bolo que estão jogando fora. Hoje, lentes de contato representam quase 50% do meu faturamento total, enquanto na maioria das ópticas representam 5%. Então fica difícil, Jeno.
Os especialistas com formação técnica ou superior precisam entender esse produto, adaptar sem medo e sem preocupação. Fazer aquilo que é de direito. Se não for assim, nada se constrói. Viajo muito e entro nas óticas de quase todos os Estados dessa federação e se eu te contar o que eu já ouvi de balconistas e empresários, você chora comigo. Em contra partida, tem ópticas com especialista, mas não tem o mínimo de equipamento necessário. Algumas pouquíssimas ópticas fazem o trabalho como deve ser feito.
OR - Sergey, para encerrar, o que deve ser feito?
Sergey - Acho importante, como primeiro passo, os profissionais exercerem o mínimo que apreenderam, e isso não ocorre. As organizações que comandam os profissionais como o conselho de classe junto aos sindicatos que representam o varejo empresarial, necessitam realizar trabalhos em conjunto, mas distintos.
Exemplo, Conselho cuida do profissional, Sindicato cuida do varejo do comércio. Ação conjunta seria o sindicato mostrar para o empresário que lentes dão lucro quando feitas por um profissional qualificado e o conselho ajuda a adequar o profissional para a nova realidade.
Acho primordial os profissionais procurarem o conselho de classe para um programa de educação continuada.
É isso o que eu penso.