Filmes em 3D estão de volta e pretendem revolucionar o cinema.
Nos últimos 50 anos, Hollywood lançou mão de várias tentativas...
17/4/2008 - 10:03
Nos últimos 50 anos, Hollywood lançou mão de várias tentativas de revolucionar a forma de vivenciar o cinema, mas uma delas, que no passado foi desacreditado, está voltando com tudo e promete mudar para valer a experiência cinematográfica: a projeção em 3D.
Por enquanto, a presença dos filmes em três dimensões nas telas ainda é tímida, mas segundo o jornal inglês "The Guardian", nos próximos dois anos ela poderá ser a maioria. Os estúdios estão apostando alto nas produções que usam a tecnologia. No Brasil, por exemplo, o filme "Hannah Montana e Miley Cyrus Show: O melhor dos dois mundos" ("Hannah Montana & Miley Cyrus: Best of both worlds concert") será lançado no dia 25 de abril apenas em 3D, nas seis salas de três cidades que comportam o formato no país: Rio de Janeiro, São Paulo e Florianópolis.
DVD, TV a cabo, internet e pirataria acabaram com a hegemonia do cinema no mundo do entretenimento audiovisual, e os donos de cinemas estão esperando a salvação. De acordo com o "Guardian", essa salvação pode estar na forma do 3D digital. Ridicularizado pela tentativas falhas do passado, o cinema em três dimensões encontrou finalmente o equilíbrio técnico para se impor, apoiado pelo rápido desenvolvimento da infraestrutura das projeções digitais e um grupo de produtores que jura de pés juntos que o 3D vai transformar a maneira com que assistimos aos filmes de uma vez por todas.
Ícones da indústria, como James Cameron, Steven Spielberg, Peter Jackson e o executivo de estúdios Jeffrey Katzenberg estão trabalhando fervorosamente em projetos em 3D aguardados ansiosamente. Cameron está preparando o épico de ficção-científica "Avatar" para dezembro de 2009 pela 20th Century Fox, que também está trabalhando na seqüência da animação "A era do gelo 3", "Ice Age: Dawn of the Dinosaurs". Spielberg e Jackson se comprometeram com a adaptação de três filmes com atores de carne-e-osso adaptados dos quadrinhos de Hergé do detetive Tintin, enquanto Jackson tem falado de converter sua trilogia de "O Senhor dos Anéis" para três dimensões.
Ainda este ano, no segundo semestre, será lançado nos cinemas o filme "Jornada ao centro da Terra 3D", um filme-pipoca orçado em cerca de US$ 50 milhões, estrelado por Brendan Fraser, baseado no clássico romance de Júlio Verne.
Mas o Papa da revolução do 3D digital é Katzenberg, um ex-prodígio dos Estúdios Disney que montou o DreamWorks com Spielberg e David Geffen 14 anos atrás e agora comanda sozinho o braço de animação do estúdio, o DreamWorks Animation, criado em 2004. Katzenberg abriu os olhos para o novo filão quando assistiu à animação digital "O expresso polar em IMAX 3D".
- Saí do cinema e percebi que aquilo era algo que poderia se tornar uma grande oportunidade para os filmes e para nossa empresa. Eu tinha que aprender mais sobre aquilo - disse Katzenberg ao "Guardian".
E ele aprendeu, contratando diretores experientes e imbuindo em sua equipe uma paixão por criar um cinema 3D viável. Isso seria uma evolução do sistema de projeção em duas faixas e dos precários óculos vermelho-e-azul de papelão, para um novo modelo construído sobre uma plataforma digital, em que cada pessoa eventualmente irá possuir seus próprios óculos polarizados que levará para o cinema.
Katzenberg garante que, a partir do verão americano de 2009, com o lançamento de "Monsters Vs Aliens", e continuando no ano seguinte com "Shrek Goes Fourth" e "How to Train Your Dragon", o estúdio dele faria apenas filmes em 3D.
A Disney, dias atrás, anunciou que vai seguir o mesmo caminho: começando com "Bolt", estréia deste Natal sobre um astro de TV canino, todos os seus lançamentos de animação (tanto da Pixar como do Walt Disney Studios) serão em 3D.
Agora há uma confluência incrível de acontecimentos que está fazendo o 3D ser tão fascinante. Temos novos óculos polarizados que dão uma imagem muito melhor e são muito mais confortáveis que os de antigamente. As salas de cinema têm projetores digitais que dividem a imagem sem nenhuma distorção, e as ferramentas que temos nos possibilitam a ter uma imagem perfeita que não fica borrada, não causa tensão nos olhos e não tem "fantasmas" - conta Katzenberg - Nossos cineastas agora podem criar uma experiência de imersão verdadeiramente de tirar o fôlego, que leva o público para esse mundo dimensionalizado. Isso dá um requinte à experiência de estar no cinema. Eventualmente veremos essas inovações chegarem à televisão, à tela do computador e aos outdoors - conclui.
Em média, os estúdios DreamWorks gastam por volta de US$ 150 milhões para produzir um filme, e Katzenberg estima que o processo 3D vai aumentar esse custo em cerca de 10%.
Atualmente, ainda são poucas as salas capazes de projetar filmes em três dimensões - no Brasil são apenas seis: no Rio, em São Paulo e em Florianópolis. A empresa REAL D, a mais proeminente neste setor, renovou suas salas digitais e instalou sistemas de projeção em 3D em 1.250 cinemas por 25 países. Estima-se que até o fim do ano que vem esse número subira para 4 mil.
Inevitavelmente, donos de cinemas passarão os altos custos de instalação do sistema - orçado em cerca de US$ 20 mil - para o público em forma de preços de ingresso "premium", para usar um eufemismo da indústria. Nos EUA, as entradas para o filme "Hannah Montana e Miley Cyrus Show: O melhor dos dois mundos 3D" foram vendidas por US$ 15 - aproximadamente duas vezes o preço médio dos ingressos nos Estados Unidos.
Exibidores esperam que a qualidade da experiência visual aumente a freqüência dos cinemas, e ingressos mais caros aumentariam os lucros. Do lado dos produtores, cineastas têm informado que o processo está mais avançado agora e que os filmes 3D em carne-e-osso podem ser filmados com o mesmo grau de flexibilidade de um filme normal em 2D.
James Cameron rodou "Avatar", estrelado por Sigourney Weaver, na Nova Zelândia por quatro meses usando a câmera Fusion que ele inventou no início da década ao lado de seu colaborador de longa data e diretor de fotografia Vince Pace. A Fusion, como todos os sistemas de câmeras 3D, engloba duas câmeras, montadas juntas, que capturam imagens equivalentes ao olho direito e ao olho esquerdo. Um separador de luz divide as imagens em dois canais divididos igualmente entre as câmeras. Incidentalmente, cada câmera individualmente vai criar uma imagem em 2D que pode ser usada perfeitamente para a projeção nos cinemas.
Assim como Katzenberg, o produtor de "Avatar" Jon Landau ressalta que esse processo precisa ser orgânico ou arrisca acabar por aí.
- Estamos fazendo esse filme porque ele se sustenta na base de uma ótima história de Jim, não porque nós queríamos fazer um filme em 3D: o 3D realça a forma de contar a história. Nossa meta com o 3D é fazer a tela plana desaparecer e ter o espectador olhando através da tela plana para um mundo inteiro. Você quebra essa barreira e a experiência se torna mais voyeurística - diz Landau ao "Guardian".
O jornal inglês questiona ainda se os filmes em 3D vão mudar a maneira com que percebemos os filmes, ou apenas a maneira que os consumimos? Durante a produção de "Jornada ao centro da Terra 3D", a equipe se viu diante de algo fascinante:
- Seu cérebro pode processar informação apenas a uma certa velocidade, então nas exibições-teste o público se sentiu enganado porque as cenas eram muito curtas e tinham muitos cortes. Em 3D, as pessoas querem ficar imersas naquele mundo. Tivemos que reinserir cenas que tínhamos cortado da versão em 2D e fizemos a mesma coisa com o trailer. Queremos dar ao espectador tempo para absorver a imagem em vez de bombardeá-lo com ela - diz o produtor Beau Flynn.