Insetos e microorganismos criados em laboratório formam um exército para controlar pragas e transmissores de doenças.
29/1/2010 - 11:13
Insetos e microorganismos criados em laboratório formam um exército para controlar pragas e transmissores de doenças.
A guerra contra a dengue pode ganhar um reforço nos próximos anos. E o batalhão que ajudará a combater a doença, que mata cerca de 20 mil pessoas por ano em todo o mundo, não será formado por um enorme grupo de voluntários que distribui folhetos de orientação. A ajuda virá dos laboratórios das universidades, direto das pesquisas com manipulação genética. Em outubro, pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) receberam autorização para fazer testes com uma nova espécie transgênica do mosquito Aedes aegypti, principal vetor do vírus. Outros seis países também estão avaliando o inseto geneticamente modificado pela Oxitec, empresa incubada na Universidade de Oxford, na Inglaterra.
O alvo é atacar o aumento da população dos mosquitos transmissores da dengue. Para isso, os pesquisadores estão fazendo uma experiência com os machos da espécie. Normalmente, os insetos têm no corpo uma toxina natural que controla a renovação das células, determinando quando elas devem morrer para dar lugar às novas. Dois genes atuam nesse processo. O primeiro ativa o segundo, que é o responsável pela liberação da toxina. É esse processo que o experimento altera. O primeiro gene é reprogramado para só autorizar a liberação da toxina na ausência de um antibiótico. Ao copular com os insetos geneticamente modificados, as fêmeas Aedes aegypti geram ovos com essa característica. Como as larvas se desenvolvem em ambientes sem o antibiótico, automaticamente seus genes liberam a toxina, que as leva à morte em torno de sete dias.
Margareth Capurro, coordenadora dos testes com o mosquito no Brasil, aposta também em outra frente para o controle da dengue. Há mais de dez anos ela estuda uma forma de mexer no DNA do Aedes aegypti e do Anopheles, gênero do mosquito transmissor da malária. "A ideia é introduzir na população genes que ataquem o vírus da dengue ou o parasita da malária", diz. Por enquanto, ela trabalha principalmente com o mosquito transmissor da dengue. Uma proposta é modificar anticorpos de camundongos e inseri-los nos mosquitos. No organismo dos insetos, essas células reconhecem o vírus e impedem-no de atingir a glândula salivar do inseto. Em laboratório, o método já conseguiu bloquear 99% do vírus. "Mas esse 1% é suficiente para passar a doença", afirma a pesquisadora. Por isso, Margareth está produzindo uma espécie de coquetel de moléculas para aumentar a eficiência da técnica.