Marcos: Tarefas e desafios complementares sempre fizeram parte de minha vida profissional. Iniciei minha carreira no mercado financeiro, no BankBoston, uma verdadeira escola. Depois fui para a Shell, meu primeiro contato com a área comercial. Passei pela Wizard Brasil, na qual fui responsável pelos processos de desenvolvimento de franqueados e suas equipes. E nos últimos anos trabalhei numa grande fábrica de óculos, onde aprendi muito do que sei sobre o mercado óptico. Agora estou dedicado ao varejo, é uma nova fase de desenvolvimento da minha carreira na óptica.
Portal Opticanet: O seu envolvimento com o mercado óptico já transcendeu do profissional para o emocional?
Marcos: Acredito que todos devemos fazer quaisquer atividades com brilhos nos olhos. Penso que o sucesso ocorre quando você coloca coração e alma em suas ações, contudo, para mim óculos são uma verdadeira paixão. Uma solução e, como diz o Sr. Miguel Gianini, um "necessório".
Portal Opticanet: Explique melhor essa relação!
Marcos: Eu não sabia ler e escrever até os nove anos de idade, estudava em uma escola pública da periferia de São Paulo, um belo dia, uma bendita professora, Dona Ester Toledo Pedroso (guardei até o nome dela) teve a brilhante idéia de realizar um teste oftálmico comigo, daqueles simples. Descobriu que eu enxergava muito pouco como o olho direito e era míope do esquerdo. Fui encaminhado ao médico, que diagnosticou ambliopia, me DEU os óculos de presente. Acho que esse foi o melhor presente que eu ganhei na minha infância. Em 3 meses eu estava lendo e escrevendo. A diferença foi brutal em termos de qualidade de vida, ou seja, um par de óculos transformou a minha vida para muito melhor.
Portal Opticanet: Você poderia dizer que os profissionais do mercado também têm esse envolvimento?
Marcos: Há alguns anos o Professor Stephen Kanitz publicou um artigo chamado Preparadas para Servir, em que ele diz textualmente: "Quem quiser viver da indústria e do comércio terá de se conscientizar de que as coisas mudaram. Ninguém mais opera exclusivamente nos setores do comércio e da indústria. Na realidade, esses dois setores dependem dos serviços que prestam, não dos produtos que entregam. O mundo empresarial de hoje é o mundo dos serviços."
Servir pressupõe um componente emocional muito grande, quer dizer envolvimento emocional, mesmo que momentâneo, como a dificuldade do outro. Quando se vende um artigo de tanta importância quanto os óculos, devemos imaginar que esse envolvimento deva ser maior ainda.
Em nosso mercado vejo profissionais, como a Claúdia Cunha, com quem eu aprendi muita coisa, se dedicando todos os dias para oferecer oportunidades de melhorias para o mercado.
Existem muitas oportunidades de capacitação, de aprimoramento, muitas delas gratuitas. Quando desenvolvemos, em parceria com o Portal Opticanet, o curso de ajuste de armações, pudemos ver que muitos profissionais querem melhorar, tivemos mais de 8.000 pessoas fazendo o curso nos primeiros 3 meses. É um número considerável, porém pequeno perto das oportunidades que o mercado oferece.
Penso que o que falta, e isso não é uma crítica, mas uma constatação, é o profissional da óptica (varejistas e vendedores) saber o tamanho da importância que eles têm. A diferença entre enxergar e não enxergar é brutal, e um bom profissional pode mudar para melhor a vida das pessoas. E fazer com brilho nos olhos, com orgulho, sabendo que estão modificando para melhorar a vida das pessoas.
Portal Opticanet: Recentemente você passou por uma experiência que te fez pensar nessa "falta de paixão" dos ópticos, não é mesmo?
Marcos: Em novembro fomos os cinco, eu, Noêmia, Arthur, Victor e Giulia ao oftalmologista, saímos de lá com cinco receitas, duas delas bem complicadas. Iniciamos o processo de compra dos óculos, afinal eram cinco receitas e iríamos comprar armações e lentes.
Visitamos 8 ópticas de todos os tipos, tamanhos e localizações: Sofisticadas, simples, grandes, pequenas, de rua e de shopping.
Pude sentir na pele tudo aquilo que sempre preguei em treinamentos, em palestras para lojistas e vendedores, afinal: Muitos profissionais não sabem a importância que têm. Não se esforçam em SERVIR, em oferecer as melhores soluções.
Eram cinco receitas completas e não estávamos buscando frescuras, tapete vermelho, queríamos apenas alguém que nos mostrasse boas opções, tivesse prazer em nos atender, e fosse realmente preparado para tirar nossas dúvidas. Felizmente encontramos muita gente boa, mas a maioria não sabia do que estava falando, não havia se preparado para a venda, não trabalhava em equipe... Enfim cometia erros básicos que nos afastava da loja. Só fui perceber isso racionalmente mais tarde, ao avaliar os motivos pelos quais nós não havíamos feito a compra dos óculos na primeira óptica.
Aconteceu que pagamos um pouco mais, mas fomos tão bem atendidos que resolvemos comprar na última, o que tinha essa vendedora (Flaviana) da última loja que tanto nos agradou: Preparação e brilho nos olhos, interesse genuíno por nos ajudar e oferecer um bom produto e serviços de qualidade.
Portal Opticanet: Você acha que essa falta de paixão se dá pela falta de treinamento ou pela baixa remuneração dos profissionais?
Marcos: Acredito que as pessoas devem fazer aquilo que gostam, especializar-se naquilo que gostam, o dinheiro vem como conseqüência disso. Agora penso também que os lojistas devem proporcionar mais treinamentos para seus funcionários e cobrar a aplicação do que foi passado nos treinamentos. Vejo em vários mercados treinamentos sendo ministrados "para cumprir tabela" e a cobrança da aplicação dos conceitos quase não existe.
Portal Opticanet: Apesar de tudo que você nos contou, há ainda o que mais te chateia no universo óptico?
Marcos: Diminuir um produto tão especial e tão importante ao universo do simples preço, sem pensar em valor agregado, sem pensar em marca, sem pensar em realizar um bom trabalho, e principalmente, em marcar presença em um universo de tantas possibilidades que é o ramo óptico. Apenas 34% da população mundial não precisam de correção, vejam o tamanho desse mercado e quanta coisa pode ser feita para aprimorá-lo.
Portal Opticanet: E o que mais te deixa "orgulhoso" ?
Marcos: Saber que existem lojistas e fabricantes se esforçando para mudar esse quadro, buscando a preparação dos vendedores, a conscientização de sua importância. Isso me deixa muito orgulhoso, e esses lojistas são sempre os que se destacam em vendas e resultados.
Portal Opticanet: E qual mensagem você gostaria de passar para os profissionais de ópticas que estão lendo essa sua entrevista?
Marcos: Agir com profissionalismo e com emoção. Um bom profissional não pode exercer sua função como um robô. Ele precisa ter dedicação, talento e, acima de tudo, gostar do que faz. Esses são fatores que, somados a uma dose de sorte, o levam a um patamar elevado de resultados e de sucesso.
Força!! 2011 vem com tudo , para todos nós!