Eu ministro aula sobre Óptica Oftálmica há mais de duas décadas e, durante todo este tempo sempre contei a história que ele revelou a um jornal brasileiro, quando esteve na Abióptica, em São Paulo, há alguns anos.
Disse que quando desenvolveu o primeiro protótipo de lente progressiva orientou que o próprio pai testasse a lente recém-inventada e avaliasse o desempenho das mesmas. Após alguns dias questionou ao pai sobre o seu desempenho visual com as novas lentes.
O pai prontamente afirmou que estava enxergando muito bem e que estava impressionado. Que alívio, deve ter sentido o então jovem inventor! Sua invenção seria um sucesso absoluto, pensou. Sentiu que poderia prosseguir aprimorando seu ambicioso projeto.
Porém, disse, bastava dar as costas ao pai e, este logo tirava os óculos, pois, não conseguia enxergar bem com aquelas lentes rudimentares e com níveis de aberrações ópticas tão altos que impossibilitava a visão nítida. Depois do sucesso do filho o pai revelou que não queria desanimá-lo, logo, preferiu ocultar as dificuldades de adaptação com aquelas lentes.
Estórias como estas não são incomuns. Pais e mães que fazem de tudo para ver seus filhos brilharem como profissionais bem sucedidos é bastante trivial. Qual brasileiro não se lembra do filme "Dois filhos de Francisco", que conta a vida da dupla Zezé de Camargo e Luciano?
O pai, seu Francisco, demonstrou uma resiliência e determinação incríveis, acreditou no talento dos filhos, mesmo a despeito de todas as dificuldades que teimavam em desanimá-lo. São histórias que emocionam e servem de exemplo em um mundo de tantas nulidades, de tanta desunião entre as famílias, de tantas pessoas que preferem dizer "você não consegue", "é muito difícil", enfim. São exemplos que nos estimulam a continuar acreditando no ser humano, acreditando que o melhor de nossas vidas ainda está por vir, basta que acreditemos e façamos nossa parte.
Voltando ao tema central deste texto, não teve uma única vez que em minhas aulas sobre lentes progressivas nas últimas duas décadas eu não tenha comentado com os alunos sobre o Sr. Bernard Maitenaz. Eu como apaixonado pelo tema lentes progressivas, nunca perdi a oportunidade de enaltecer este francês que foi um divisor de águas na óptica mundial. Desde aquelas primeiras lentes usadas por seu progenitor há mais de meio século, até as lentes dos dias atuais a evolução foi extraordinária.
O que diria o homem que testou efetivamente as primeiras lentes progressivas ao usar as lentes de última geração?
O que revelaria ao usar lentes progressivas inteligentes? O que falaria ao saber que não é mais o usuário que precisa se adaptar às lentes. Não, agora são as lentes que se adaptam ao usuário. As lentes são fabricadas sob medida para cada usuário, levando em consideração aspectos únicos de cada indivíduo como, convergência, movimentos de olhos e cabeça, ametropia, aspectos ergonômicos e laborais de cada cliente. Provavelmente aquele senhor ficaria maravilhado com tanta evolução.
O senhor Bernard Maitenaz não está mais entre nós, mas seu exemplo de criatividade, seu trabalho de vanguarda ecoarão para sempre, será lembrado pela eternidade.
Este texto é uma humilde homenagem que faço ao inventor das lentes progressivas.
Artemir Bezerra
Óptico
Optometrista
Pós graduado em Ortóptica
Professor de Óptica Oftálmica
Especialista em óptica
Escritor de Optometria no Brasil (2011) e Óptica oftálmica Aplicada (2013)