Parece ser assim com relação à Optometria no Brasil. Parece que o país inteiro foi aprisionado numa caverna onde só se vê sombras com relação a esta profissão, quando se vê. A Optometria é uma profissão secular, mas quantas pessoas, das quais conhecemos, conhecem esta ciência? Quem nunca, ao falar da Optometria para alguém, já obteve como resposta: o que é isso? Quantos ópticos e donos de ópticas sabem que a Optometria nasceu nas chamadas Guildas, através dos oculistas? É lamentável, mas nem mesmo certas autoridades do nosso país conhecem direito esta ciência. Até o nosso próprio Direito por vezes entra em conflito (com tantos pareceres, decretos e leis) sobre o assunto, num triste estado de penumbra que custa clarear.
O mito conta que as pessoas aprisionadas consideravam a caverna como o seu mundo, único e limitado, e que somente o que ali se aprendia, ou seja, somente o conhecimento produzido por aquelas pessoas, era aceito como verdade. Para elas, as sombras projetadas no fundo da caverna eram apenas projeções do que acontecia no seu próprio mundo de ideias. Elas não conheciam outra realidade. Havia um alto muro que as separavam do mundo exterior.
Um dia, um daqueles prisioneiros decidiu escalar o muro, enfrentar os obstáculos e sair da caverna. E descobriu que fora dela existiam outras verdades além das quais conhecia. Mas, infelizmente, ao voltar e contar tudo o que viu, foi tido como um louco, um mentiroso. Pois, para os prisioneiros, toda verdade e conhecimento contidos ali eram o bastante para a sobrevivência das pessoas.
O que ocorre no Brasil é semelhante a isso. Atualmente, muitos obstáculos dificultam o total esclarecimento da Optometria, contribuindo para a permanência das pessoas na ignorância. Ouve-se o eco da desinformação e, não obstante, a má informação se projeta em grande parte do país, exatamente como as sombras no interior da caverna, de acordo com o mito.
Sombras de ignorância e de subserviência aos interesses de uma classe que almeja dominar todas as verdades sobre a saúde visual das pessoas, que na verdade são verdades forjadas em interesses pela manutenção de reservas mercadológicas com fins, perceptivelmente, financeiros e políticos. Somente quem sai da caverna pode saber quanta luz existe do lado de fora, e o quanto as pessoas precisam de esclarecimentos com relação à Optometria.
No Brasil, muitas luzes sobre a Optometria foram projetadas, desde o final do século XIX e início do século XX. Mas, desde 1932, ano em que surgiu a primeira lei sobre o tema, o país ainda permanece nessa terrível penumbra, porque, na mesma proporção, também surgiram muitas sombras que dificultam o total clareamento do assunto. Ano após ano, por exemplo, Optometristas brasileiros vêm sofrendo perseguições, sendo impedidos de trabalhar. Muitos, ainda são forçados a dar esclarecimento às autoridades, acerca da profissão que exercem e obterem, na justiça, o direito de trabalhar.
Outros, ainda são até expostos, diante de toda a nação, sendo acusados de exercerem "ato médico", sendo confundidos com falsos médicos, sendo considerados como criminosos, uma ameaça à saúde pública da nação, e assim por diante. Tudo por causa das sombras da caverna.
Por isso, neste sentido, é preciso desobedecer ao senso comum e ao interesse de uma classe que almeja ser dominante e avançar rumo ao esclarecimento à sociedade. É preciso esclarecer para a sociedade, dentre outras coisas, que a Optometria é exercida legal e livremente em mais de 130 países, espalhados pelos cinco continentes. O primeiro curso de nível superior do mundo em Optometria foi criado em 1894, na Inglaterra.
A regulamentação da Optometria no mundo começou em 1895, no Reino Unido, com a criação da Associação Britânica de Ótica, e também nos Estados Unidos, pela Associação Americana de Optometristas, em 1898. No Brasil, muitas instituições ensinam Optometria em nível técnico e superior desde a década de 1980, devidamente autorizadas pelo Ministério da Educação, reconhecidas pelo Ministério do Trabalho e Emprego e amparadas pela nossa Carta Mãe - a Constituição Federal.
Em outros países, as pessoas valorizam a Optometria por que a conhecem. E se o Brasil não conhecer a verdadeira Optometria, como profissão responsável que é, e o que ela faz, continuará a permanecer na caverna da ignorância, não compreendendo os fatos e muitas verdades sobre a saúde visual. Por exemplo, a Optometria é a primeira barreira contra a cegueira reversível no mundo, menos no Brasil. Em muitos países as pessoas carregam em suas mentes figuras de Optometristas que até agora são pouco conhecidas por aqui, cujas sombras são estranhas para a maioria das pessoas: os Mestres, os Doutores e Ph.D´s, nesta ciência. No Brasil ainda há muito poucos!
De fato, alguns prisioneiros estão sendo tomados pela curiosidade e estão fugindo da ignorância. Por alguns instantes eles estão ficando completamente cegos pela luz, por que seus olhos ainda não estavam acostumados, mas, aos poucos estão se habituando à forte claridade e começando a contemplar o verdadeiro mundo da Optometria. Realmente, o Brasil precisa ver o que tem lá fora. Precisa de pessoas corajosas, que sejam capazes de sair de uma zona de conforto e buscar mais informação para compreender o assunto.
Aqueles que estão saindo estão ficando encantados, porque estão tendo a oportunidade de enxergar uma ciência como ela é em outros países. Os que um dia saíram estão mostrando a muitos prisioneiros, cerrados em muitos recantos do Brasil, a luz do conhecimento que tão bem possibilita a perfeita visão desta ciência. Estão contando o que viram para, quem sabe, poder libertar os demais companheiros de cativeiro.
E estão tendo o devido cuidado, também, ao se arriscar. Pois, como sair da ignorância é doloroso (todo processo de aprendizagem é doloroso) transmitir o conhecimento àqueles que não o detém também pode se tornar um processo ainda mais penoso, a despeito de todas as reações adversas esperadas, principalmente, por causa do impasse que se impõe entre a Optometria e a Oftalmologia.
Neste impasse, uma vez de volta a caverna, o ex-prisioneiro pode ser rejeitado e não saber mais se mover entre os antigos amigos, nem falar da mesma forma de antes. Ele pode ser desacreditado pelos que ainda estão nas "trevas" e pode correr o risco de morrer (profissionalmente) por aqueles que jamais abandonarão a caverna.
Ele pode, inclusive, morrer por dentro, por não ser aceito pela sociedade ou, quem sabe, ir embora para um lugar onde as pessoas possam nele acreditar. É lamentável, mas quem sai da caverna e um dia volta, dificilmente será bem aceito sem controvérsias ou contravenções. Contudo, se não for assim, só resta a opção de permanecer na escuridão, ficando submisso aos prisioneiros que insistem em defender suas próprias verdades sobre saúde visual, envolvidos por uma densa nuvem de ignorância, de subterfúgios e de preconceito.
Wellington Sales Silva
Técnico em Óptica e Optometria
Bacharelando em Optometria pela Fundación Universitária Del Área Andina - FUAA.