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Caso Neurooptométrico: Dra. Janaína

Artigo do Professor Vilmario Antonio Guitel, Bacharel em Optometria.

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Compareceu ao no meu consultório de Optometria, em 28 de abril, 2021, a Dra. J.A. da Silva, 33 anos, que exerce atividade profissional na Área da Saúde, com a profissão de Neuropsicóloga. (Fez Pós-graduação em neuro no Hospital Albert Einstein em SP).

O motivo da consulta seria de rotina para exame da correção da visão. Usuária de óculos com a seguinte RX:

OD + 0.50 - 1.75 X 10º
 OE + 1.00 - 2.50 X 165º

Com estas lentes, possui uma boa qualidade de visão. Consegue 20/20 em AO e também J/1 em VP. Contudo, as queixas da paciente eram muitas e chamaram minha atenção: 

1. Relatou que tem severa dificuldade de locomoção.
2. Tem pouca noção de profundidade e de distância.
3. Cai com frequência, tropeça em tudo.
4. Não consegue subir e descer escadas sem acompanhante
5. Sua visão, embora seja boa com o uso de óculos, ao andar percebe o chão sempre inclinado, o que não lhe permite subir e pior ainda, descer escadas. Para descer escada, só acompanhada ou, se estiver só, desce sentando, degrau por degrau.
6. Já bateu seu carro mais de 50 vezes em postes, em outros carros, tanto que não compra carro novo porque sabe que vai bater novamente na guia ou em outros carros.
7. Gasta muito dinheiro com remédios para dormir, dor de cabeça, ansiedade, enxaqueca, depressão etc
8. Tem depressão e desenvolveu ansiedade grave

Como a mãe estava presente na consulta, contou que a filha sofreu queda aos 3 meses de idade. Caiu dos braços do pai, bateu a cabeça e teve desmaio por alguns minutos após o que ficou toda roxa, foi levada ao médico, quando voltou, chorava muito. 

Na minha observação, parece que o trauma na cabeça causou um transtorno crânio encefálico com severas sequelas que a acompanharam por toda sua vida. Ela contou ainda, que só começou a andar depois dos 3 anos de idade, mas sempre puxada pela mão de uma prima. Sua teve pouca coordenação motora nunca foi boa. 

J. A. relatou que sofreu muito bulling na infância e adolescência por causa das quedas frequentes e da dificuldade de locomoção. Por isso, conquistou poucos amigos na escola. Finalmente conseguiu se formar e a controlar melhor suas dificuldades. Aprendeu a observar como a pessoa anda ao seu lado. Mas as quedas continuam e se sucedem com frequência. Ela dirige, mas sofre constantes acidentes com o carro. Sente muita dificuldade com escadas e com a claridade. É extremamente dependente de pessoas para acompanhá-la à qualquer lugar que vá. A companhia mais frequente, é a própria mãe, que a acompanha para ir ao Banco, shopping, mercado, etc. É totalmente dependente da mãe. Por isso, é uma pessoa limitada ao seu próprio recinto, porque para qualquer saída de seu consultório, precisa do auxílio de alguém para acompanhá-la, mesmo que seja para um simples cafezinho. 
Como contou que fez sua Pós Graduação, em Neuro, no Hospital Albert Einstein, perguntei se lá não foi examinada por neurologista. Respondeu que sim, "um neurologista a atendeu e a encaminhou para um neuroftalmologista". Afirmaram que seu caso não tinha como corrigir. Foi examinada no próprio Hospital pelo neuroftalmologista, o qual também não encontrou solução para suas deficiências. Fez todos os testes laboratoriais do hospital, com o diagnóstico de que não existe correção ou solução possível, neste caso. Depois foi em vários oftalmologistas e a resposta era sempre a mesma: não acreditavam no seu relato sobre falta de noção de profundidade. 

Todas estas informações e condições me levaram a suspeitar que o trauma por todo estes anos havia condicionado a paciente J.A. a uma situação da qual ela ficou refém por várias deficiências motoras. Talvez fosse possível obter algum resultado de melhora através de lentes neurofuncionais que são confeccionadas por prescrição de Neuroptometrista ou Optometrista Comportamental. Seria uma tentativa para ajudar a paciente a obter alguma melhora. Dentro dessa expectativa, perguntei à Dra Janaína se ela permitiria que eu testasse com ela, lentes neuro funcionais que seriam adicionadas às suas lentes corretivas, na tentativa de corrigir ou minorar suas dificuldades de locomoção, seu equilíbrio, noção de profundidade e dificuldade com distância. Ela prontamente respondeu que faria qualquer teste para melhorar sua situação. 

Dentro dessa perspectiva, adicionei às lentes corretivas que ela já utilizava, lentes neurofuncionais (3 prismas    com base inferior) o que  tornou sua visão mais elevada. (A percepção das imagens foram alteradas para cima). 
A primeira experiência, com os óculos prismáticos de teste, foi a deambulação, também conhecido por "Teste Ambulatorial". Pedi a J.A. para andar e observar como via o piso, se continuava inclinado ou não. Ela andou e respondeu que não, o piso, agora estava reto e certo. Então solicitei que tentasse pegar objetos, para observar sua discriminação de distância e profundidade. Deu tudo certo, sem dificuldade. A próxima experiência com os óculos, foi bem mais complexa: pedi para ela descer as escadas do consultório. Ela balançou a cabeça, como não acreditando e disse "não vou conseguir". Mas andou até a escada, apalpou o corrimão, desceu um degrau, bem devagar, depois outro e outro até o final. Em seguida pedi para voltar. Subiu lentamente, mas conseguiu. Falei: desça de novo. Ela desceu. Como vê os degraus? Agora vejo os degraus no lugar certo. Vejo tudo certo, respondeu ela. Então falei: gostaria de andar na rua? Claro, respondeu ela, mas gostaria de ir até a descida do Morro do Passarinho (que é uma rua em rampa, bem acentuada e fica a 200m do meu consultório). Quero testar lá, porque nunca consegui descer essa rampa (onde fica meu consultório), sem apoio e ajuda de alguém, disse a paciente. Ela voltou após algum tempo, e perguntou se poderia levar aqueles óculos já!!!. Respondi que não. Era apenas óculos com lentes de teste. Precisaria fabricar as lentes neurofuncionais, o que levaria em torno de 10 dias. 

Como todos os testes foram favoráveis, prescrevi para a Dra. J.A. uma Rx neurofuncional. Antes avisei que este tipo de prescrição requer um espaço de tempo para adaptação. Além disso, carece de um acompanhamento constante, visto que a própria estrutura cerebral, que foi modificada na sua fisiologia funcional, pode sofrer alterações, tanto pelo metabolismo como pela própria reorganização cortical, o que pode exigir nova prescrição com aumento, diminuição ou mesmo retirada do efeito prismático. 

Após serem confeccionadas as lentes, a neuropsicóloga retirou seus óculos neurofuncionais em abril de 2021 e só voltou à Óptica em agosto de 2021 para fazer novos óculos com a mesma prescrição neurofuncional. Não relatou nenhuma queixa. 

Só retornou a consulta em janeiro, 2023. Disse, logo que entrou, que não voltou antes aos retornos, por medo que eu fosse retirar os prismas. Porque sua vida teve uma mudança radical: Não depende mais de ninguém para sair, andar ou mesmo dirigir. Inclusive vai comprar carro novo porque "nunca mais bateu seu carro" e não depende mais do marido para estacionar na garagem. 

Também não é mais dependente da companhia da mãe, que inclusive, mudou-se de sua casa. Outra novidade foi a grande economia de remédios: não precisa mais das medicações para depressão e enxaqueca: economiza mais de 1.000 reais mensais. 

Seu grande receio era que eu dissesse que não precisaria mais dos prismas. Pelo contrário, fiz novos testes e mantive as dioptrias tanto para correção das ametropias como da prescrição prismática de 3 prismas com base inferior em AO. 

A paciente inclusive se prontificou para apresentar seu depoimento se quisesse expor seu caso para a comunidade científica. 

Realmente, a Neurooptometria ou Optometria Comportamental operam verdadeiros milagres, (sem necessidade de cirurgia), ajudamos pessoas com deficiências motoras de origem neurológica, como no caso da Dra Janaína que obteve grande benefício pela enorme mudança na sua vida com o simples uso de lentes neurofuncionais. 

Professor Vilmario Antonio Guitel 
BACHAREL EM OPTOMETRIA
Optometrista, OD - Regional SP CROOSP 02.003
Técnico em Óptica e Lentes de Contato - SENAC SP
Pós Graduação "Alta Optometria Pediátrica" - UNC - SC
Pós Graduação "Magistério do Curso Superior" - UNC - SC
Especialista em Fototerapia Syntonic - Inst. Thea, Florianópolis SC 
Optometrista Comportamental - Inst. Thea, Florianópolis SC
Neuroptometrista - Instituto Thea, Florianópolis SC
Colunista Opticanet - Categoria: Colunas & Artigos
Fonte: Vilmário Antonio Guitel

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