Uma boa maneira de entender o enorme benefício em possuir um bom desempenho dos "sentidos", seja da visão, audição ou do tato, é considerar os desafios enfrentados por portadores de autismo. Pessoas, com diagnóstico desse transtorno, os autistas, podem apresentar grande dificuldade para se comunicar, principalmente em mostrar emoção e de se relacionar de maneira social.
Entre muitas características encontradas nas pessoas autistas, a condição pode afetar várias áreas do cérebro, além da sensibilidade. Inclusive o cerebelo (equilíbrio); o hipocampo (memória); sistema límbico (emoção) e o tálamo (distribuição das informações). Tais condições podem provocar distorções do comportamento.
Porque muitas crianças autistas evitam o contato físico?
Com certeza, um dos motivos é que a informação sensorial que o autista recebe do seu entorno, lhe chegam com enorme velocidade, fazendo com que seu cérebro não consiga processá-las com naturalidade. Isso pode provocar um stress por excesso de estímulos sensoriais recebidos.
Uma reação típica, nestas situações, é se fecharem ou tentar escapar aos estímulos. Isto é agravado por incapacidade de "prestar atenção" pelo fato das informações sensoriais, tanto da visão como da audição ou do tato, chegarem ao seu cérebro fragmentadas e ruidosas.
Como exemplo, um bebê saudável, possui condições de alterar sua atenção em frações de um segundo ao passar da observação dos olhos para o nariz ou boca de sua mãe. Mas o bebê autista, pode levar de cinco a seis segundos apenas para processar o nariz da mãe. Por esta demora, a criança não consegue abranger de uma só vez um rosto inteiro, observando apenas partes. Dessa forma, para um bebê autista, fica difícil aprender, entender e diferenciar certas pistas sociais como um sorriso ou uma carranca. Dessa condição, resulta que, como o bebê recebe apenas informação parcial e truncada a respeito do que vê do mundo, sua percepção, é uma informação muito confusa para o processamento do seu cérebro.
Alguns autistas são portadores de orientações sensoriais normais. Embora apresentem grande dificuldade em separar uma informação da visão da de outro sentido, provocando um ruído. Além disso, não conseguem fixar uma prioridade quando lhe chegam ao cérebro grande quantidade de informações sensoriais. Para enfrentar tais condições adversas, a criança autista, reage com comportamentos cujo propósito principal é o de impedir esse acesso denso e confuso de sobrecarga sensorial. Se defendem, gritando, fechando os ouvidos, correndo para um local que impeça ou interrompa o excesso de ruído. Nessa situação, a aversão ao contato tátil, somado ao isolamento social, acaba provocando severa resistência à aproximação de pessoas.
Foi esse tipo de comportamento que proporcionou a origem para o diagnóstico de uma paciente que chegou a consulta no consultório do Dr. John J. Ratey, (neuropsiquiatra).
Quando a paciente veio ao seu consultório, já estava com 40 anos. Sua história clínica era extensa e complicada. Estivera internada em hospitais para doentes mentais por várias vezes durante 20 anos com diagnósticos de psicose maníaca depressiva, esquizofrenia e personalidade antissocial.
Maria, (nome fictício), veio à consulta com o Dr. Ratey relatando sua complexa história: Foi a filha do meio de uma família de 5 irmãos e irmãs. Cresceu uma criança tranquila, mas muito calada e solitária, sempre afastada dos irmãos. As primeiras dificuldades começaram, em torno dos 4 anos, quando a mãe tentou lhe colocar uma blusa, mas ela chorava a cada vez que lhe colocavam ou trocavam a tal roupa. A mãe, furiosa pela atitude da menina, acabou provocando um relacionamento difícil entre elas, pois considerava a atitude da filha como desobediência, visto que ocorria briga à cada vez que precisava trocar de roupa. Esta situação persistiu com uma contrariedade constante entre mãe e filha o que acabou afetando também o relacionamento com os irmãos. Todos a consideravam "criança problema".
Outros comportamentos consolidaram a interpretação da família. Maria não apreciava ir à compras com a mãe. Brigava para não ir e, se ia, fugia, indo se esconder no estacionamento. Estas frequentes situações provocavam confusão entre ela, a mãe e a família.
Na escola, Maria foi boa estudante e aos 9 anos já escrevia poesia. Embora fosse tímida, tinha de si mesma uma imagem arranhada e ofendida pelas constantes correções dos familiares. Já na adolescência, se queixava de tudo, porque era dessa forma que sua mãe, irmãos e até amigas à consideravam. Era acusada de ser mimada e não se sentia confiante quando estava entre mais de duas ou três pessoas. Outro stress aparecia se alguém tentasse lhe abraçar. Por quê seria? Dizia ter aversão em se sentir presa, assim ela mesma se considerava antipática. Essa foi sua vida até os 20 anos, com severa inclinação para a depressão.
Ao ingressar no Curso Superior, sofreu de surtos chegando a tentativa de suicídio. Sua conduta a levou a procurar um psicólogo e após 20 anos de tratamentos, inclusive com medicamentos, terminou com várias internações em hospitais. Infelizmente, nenhuma terapia descobriu a origem real de suas dificuldades e atitudes de comportamento.
Finalmente, Maria foi encaminhada ao Dr. John Ratey (por um neurologista colega dele). O Dr. Ratey resolveu reavaliar toda sua história de vida, desde as medicações utilizadas até sua menor infância. Acabou sabendo das brigas com a mãe, através de conversas com a irmã da Maria. O médico perguntou-lhe então, sobre sua sensibilidade ao sentido do tato. Ela não imaginava que tivesse qualquer problema, mas contou que algumas roupas à incomodavam, parecendo que arranhavam sua pele. Por isso, seu guarda roupa contava de poucas peças as quais costumava lavar com frequência e bastante amaciante para não sentir desconforto ao usar a roupa. Após alguns exames, ficou evidente que Maria era muito sensível ao tato. O que para a maioria das pessoas seria comum o roçar de uma peça mais áspera, para a Maria, ela sentia como um arranhão com unhas de gato, sentindo dor de fato. Esse o motivo das brigas com a mãe quando criança, por não querer usar certas blusas, que ela arrancava do corpo. Outra descoberta do Dr. Ratey, é que ela era hipersensível a audição. Ruídos, conversas, passos, bolsas de papel, tudo a deixava desolada, por isso ela procurava fugir para o estacionamento, escapando assim da sobrecarga sensorial. O barulho também era motivo para não comparecer a festas.
Foi analisando essa história que o Dr. Ratey chegou à conclusão que o caso da Maria se tratava de um "autismo moderado". A grande perda foi a falta de um diagnóstico acertado precocemente, visto que a situação acarretou à Maria uma vida inteira de opressão psicológica. A situação vivenciada por Maria e muitos outros, mostra como a percepção não é somente sentir os estímulos que nos chegam do exterior. É também um importante fator que influencia muito, durante o desenvolvimento, na personalidade da criança. Mesmo pequenos defeitos da percepção, podem ocasionar uma sequência de acontecimentos resultando em sequelas psicologicamente traumáticas.
Estágios da percepção: Os cinco os estágios de percepção, segundo *Ramachandran, são: estímulo, organização, interpretação, memória e recordação. As pessoas podem receber e interpretar simultaneamente mais do que um estímulo de percepção. Já o autista, encontra dificuldade em fazer isso por diferenças existentes no tálamo e suas conexões cerebrais.
Essa situação foi relatada no livro da autista Temple Grandin, quando descreveu o que uma companheira de autismo lhe disse:
"Não posso ouvir e ver ao mesmo tempo, porque se escuto alguém falando, não consigo saber o que estou vendo".
* Vilayanur Subramanian "Rama" Ramachandran, é um neurocientista indiano, diretor do Centro do Cérebro e da Cognição da Universidade da Califórnia, em San Diego.
* John Joseph Ratey, M.D., é professor clínico associado de psiquiatria na Harvard Medical School.
Bibliografia
Ratey, John J. MD, O Cérebro: um Guia para o Usuário. Objetiva, RJ; 2001.
Adaptação
Professor Vilmario Antonio Guitel
BACHAREL EM OPTOMETRIA - UNC SC
Optometrista, OD - Regional SP CROOSP 02.003
Técnico em Óptica e Lentes de Contato - SENAC SP
Pós Graduação "Alta Optometria Pediátrica" - UNC - SC
Pós Graduação "Magistério do Curso Superior" - UNC - SC
Especialista em Fototerapia Syntonic - Inst. Thea, Florianópolis SC
Optometrista Comportamental - Inst. Thea, Florianópolis SC
Neuroptometrista - Instituto Thea, Florianópolis SC
Colunista Opticanet - Categoria: Colunas & Artigos