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Entrevista com José Eduardo de Moura - Presidente da CROO-SP

José Eduardo de Moura é o nosso entrevistado deste mês aqui no Portal Opticanet!

José Eduardo de Moura é o nosso entrevistado deste mês aqui no Portal Opticanet! "Edu" como  prefere ser chamado, é um jovem e experiente profissional da saúde. Com 53 anos de vida, Óptico, Optometrista, empresário e professor, casado, dois filhos, paulistano, diretor presidente do CROOSP nos conta um pouco de sua história e como chegou à presidência da CROOSP, respondendo com muita sinceridade e num tom muito esclarecedor, vários pontos polêmicos que ainda permeiam o assunto "Optometria" em nosso país.

 

Acreditamos que podemos aprender muito com sua história, porque nela há muitos profissionais que vão se identificar pela determinação, coragem e principalmente pela sua luta em disseminar e em defender uma das profissões mais antigas do país: A Optometria!

É uma leitura imperdível!

 

 

OPTICANET: Nos conte sua trajetória dentro do universo óptico!?

José Eduardo: A Óptica foi o meu primeiro emprego, há 40 anos. Comecei como todo garoto daquele período (1972), boy, lavador e colador de lentes na surfaçagem (serviço pesado na época, porque maltratava muito as mãos, pele, cabelo). Cresci junto com a empresa passando por vários estágios (desbaste, polimento, cálculos de superfícies, montagem, até suporte de vendas). 

 

Quando entrei aos 13 anos, a empresa tinha dez lojas no estado de São Paulo, as lentes eram polidas com vermelhão, e os modelos, calibrados à mão (na lima). É preciso lembrar que no início da minha formação não havia internet. Escola de Óptica então, apenas o SENAC Tiradentes (a 430 km de Marília), nesse contexto, o conhecimento se dava pelo aprendizado no local de trabalho, observando os mais experientes e aguardando a oportunidade de ser chamado para uma função de maior responsabilidade. 
 
A única literatura acessível (para assinantes) eram encartes da Óptica Revista com artigos espaçados de Adelino Miranda, Aléxis Fedosseeff, Werner Otto Hoffmannbeck, Ney Dias, Rosélia Vilarins e Wanderley Azevedo Souza (entre outros que aprendi a admirar de longe e que mais tarde se tornaram meus colegas).  Aqui um detalhe importante: Até hoje conservo o hábito da leitura, influenciado por minha prima aos cinco anos de idade.  A condição de leitor precoce desencadeou um processo de busca para entender os protocolos (o porquê das coisas).
 

Nesse período de sete anos de crescimento desordenado da empresa (demanda maior que oferta de mão de obra), fui convidado a montar e ministrar cursos para gerentes e capacitação de vendedoras no balcão. Montamos uma apostila básica e a cada final de semana eu estava ampliando o meu conceito de viagem a bordo de um ônibus mundo afora, fato que influenciou a buscar cada vez mais conhecimentos para dar sustentação ao tripé (arte, técnica e bom senso), requisitos básicos da Óptica Optométrica.

 

O curso foi uma resposta à necessidade de minimizar vários conflitos que gravitavam entre vendas e laboratório. Explico-me! Entre o "bom dia" do vendedor ou balconista na recepção da RX, até o "muito obrigado e volte sempre" na entrega dos óculos, exigia mais de mil itens encadeados e muita capacidade de improviso.
 
Problemas muitas vezes latentes aos olhos menos avisados, que só se manifestam após uma análise científica do processo (o porquê das coisas). Além dos conflitos que existem até os dias de hoje, como armações que não suportam aquela fórmula Óptica, quer seja por DP, curvatura, ou diâmetro, também havia as devoluções médicas, acusando erro de laboratório, nem sempre procedentes, mas que geravam desgaste, despesas e casos graves, como a desistência e a perda do cliente.

 

Nesse tempo, o número crescente de lojas obrigava a empresa a contratar um maior número de responsáveis técnicos em função da lei (até hoje não cumprida, que nos faz conviver com o absurdo de aluguéis de diploma).  Esses acontecimentos ao final dos anos 80 impuseram um upgrade na grade do curso de vendas para preparação de profissionais com objetivo de conquistar o diploma no CESU.

 

Quando saí, sete anos depois, muita coisa havia mudado. A empresa contava com mais de duzentas lojas, cujas máquinas estavam sendo substituídas por projetos semi-automáticos. Lembro-me de uma sala na matriz, símbolo de progresso e novidade, muito visitada por autoridades e curiosos, por ser ambiente refrigerado como suporte do único computador "mainframe".
 
O computador pessoal e acessível ainda era um sonho distante por aquelas bandas. Depois de um fracasso como sócio de um projeto de rede no interior, ainda menor de idade, resolvi voltar para cidade natal na expectativa de trabalhar numa multinacional e quem sabe chegar ao exterior. Essa volta a São Paulo também era objetivo de conquista do diploma de Óptico.
 
Como a maioridade se dava aos 21 anos, fui diplomado Óptico em 1982, no ano do meu casamento, contatólogo em 1986, fase em que conheci alguns profissionais mais arrojados e dispostos a resgatar as origens da Óptica e Optometria, passei a frequentar seminários, simpósios, congressos que eram realizados em parceria SINDIÓPTICA e ABCI, entidades que sou muito grato pela oportunidade de palestrar ao lado de Miguel Gianini, entre outros.
 
No final da década de 90 fui para o Rio de Janeiro na expectativa de conseguir o diploma de Optometrista, seis meses depois recebi uma ligação sobre o vestibular em Canoinhas, onde me formei Bacharel em Optometria na 1ª turma, em 2004. De lá para cá atuei como professor universitário e de escolas técnicas. 

 

 

OPTICANET: Há quanto tempo você está na presidência da CROO-SP?


Sou filiado ao CROOSP desde a sua fundação e há dois anos e meio compondo a diretoria colegiada no exercício de presidente
.

 

OPTICANET: Explique-nos resumidamente, qual é o papel do Conselho (CROO) na sociedade.


Essa pergunta é muito oportuna, porque o filiado nem sempre está consciente do papel do conselho, há inúmeros casos de profissionais que só nos procura na bacia das almas. Resumidamente, seguimos o exemplo de outras profissões de saúde (treze no total). O papel do CROOSP é de zelar pelas boas práticas de saúde visual não invasivas  (primeira barreira visual contra cegueira evitável). Diferentemente de saúde ocular, que trata de doenças de modo invasivo. Lutamos para fazer cumprir as leis existentes no país. É preciso lembrar que a Optometria é uma das profissões mais antigas de saúde citadas na legislação. Outras especialidades só surgiram 30 anos depois.

 

OPITCANET: Como você explicaria hoje, a situação da optometria no Brasil, e em São Paulo? Há Leis diferentes pra cada estado? Por quê?

 

Segundo Adelino Miranda, a Optometria sempre existiu. E se levarmos em consideração "A teoria de Maslow", em que as necessidades de nível mais baixo devem ser satisfeitas antes das necessidades de nível mais alto, ela sempre existirá. Por uma razão muito simples; Faz parte da natureza humana a busca de soluções que melhoram o seu desempenho vital. O imperador Nero já usava pedras preciosas como facilitadores da função visual.
 
Quanto a Optometria no Brasil, ela avança a passos largos, apesar de enfrentar um lobby poderoso pela tomada de mercado. Não só o Optometrista, Óptico ou Contatólogo, mas o segmento de modo geral precisa estar mais atento às investidas do contraditório (travestidas de defesa da saúde), que insistem em enganar a sociedade usando e abusando dos políticos corruptos. Note que a maioria dos parlamentares que votaram contra o projeto da Optometria estava ou está envolvida em corrupções que impedem o desenvolvimento pleno da sociedade.
 

O Estado de São Paulo têm registrado um número crescente de filiados. Nessa gestão fomos obrigados a reestruturar o processo de modo a minimizar conflitos internos entre o estadual e o federal. Os desafios são grandes devido à falta de profissionais com perfil de liderança. Particularmente, acredito na renovação da diretoria como forma ideal de resolver o problema. 

 

OPTICANET: Você poderia esclarecer aos leitores do Portal o que realmente se faz pelo profissional de Optometria e como isso está hoje?

 

Costumo responder a esse esclarecimento parafraseando Rubem Alves "Quem nasceu primeiro, o jardim, ou o jardineiro?" No caso da Optometria enquanto CROOSP, quem deve surgir primeiro, a Optometria CROOSP ou o Optometrista? Quem nasceu num estado patriarcal, coronelista e ditador encontra dificuldades em responder e tende a balbuciar que é o jardim.
 
Mas aí eu pergunto "e quem fez o jardim?", como analogia de quem faz o CROOSP ou Optometria crescer e aparecer. O que difere o um jardim do matagal, é ação constante do jardineiro. Há dez anos a VISA atuava de cima para baixo, privilegiando uma determinada categoria em função da outra. O entendimento de que quem deve fazer a fiscalização profissional é o órgão de classe só foi possível graças à insistência do conselho de fazer valer a lei. O profissional sem filiação é órfão, logo, se torna presa fácil do sistema mal versado.

 

 

OPTICANET: Porque a Optometria ainda é um assunto tão polêmico no Brasil?

 

O Brasil é um assunto polêmico desde o seu descobrimento. Ainda há quem acredite que ele foi descoberto por Pedro Álvares Cabral. E porque isso acontece? Difícil responder sem abordar o contexto cultural, político e social. Para os Optometristas não há polêmica, o que existe é ignorância da sociedade e das esferas de governo, quando não, má fé no uso de privilégio e abuso de poder. Graças a atuação do CBOO, CROOs e SNO em reivindicar os direitos (reclamar o que é nosso), o judiciário tem exercido o seu papel.  Ora, a constituição democrática é clara (para desespero de alguns acostumados a dividir o Brasil entre casa grande e senzala), veja alguns pontos:
 

(...)  A valorização do trabalho humano e a liberdade profissional são princípios constitucionais (...) O Brasil é um Estado Democrático de Direito fundado, dentre outros valores, na dignidade e na valorização do trabalho humanos (...) A constitucionalização da valorização do trabalho humano importa que sejam tomadas medidas adequadas a fim de que metas (,,,) busca do pleno emprego (...)distribuição eqüitativa e justa da renda e ampliação do acesso a bens e serviços sejam alcançadas (...) além de se preconizar por justa remuneração e defender o trabalho de abusos que o capital possa dessarazoadamente proporcionar (...) Consectariamente, nas questões inerentes à inscrição nos Conselhos Profissionais (...) dessa legitimação profissional exsurge a possibilidade do trabalho, valorizado constitucionalmente (...) e por aí vai sem querer me alongar no assunto.

 

 

OPTICANET: A Pergunta que não "quer calar": Há mesmo uma rivalidade muito grande entre os médicos oftalmologistas e os optometristas? Como você vê essa situação?

 

Se considerarmos a Oftalmologia de direito e os Oftalmologistas de fato na concepção da palavra, não há rivalidades, muito pelo contrário. Existe um clima de cooperação e respeito, exceto por uma minoria arcaica que desconhece o conceito moderno de saúde (que não é medicina) e que prega a volta do coronelismo, desrespeitando a nova ordem social do estado democrático, os poderes instituídos, agindo nos subterrâneos como poder paralelo, na intenção de confundir a sociedade com matérias pagas na mídia em geral.

 

 

OPTICANET: É importante o profissional ser cadastrado na CROO? Por que?

 

No inicio o CROOSP foi muito combatido pelo fogo amigo que se viu incomodado e cooptado pelo contraditório que acenava vantagens, que mais tarde não se confirmaram. Período em que fomos visitados pelo M.P. (Ministério Publico) e sofremos muito preconceito porque não havia manual de como lidar com a situação. Queríamos apenas exercer a profissão que escolhemos, cujo Estado autorizou. A única forma de fazer frente ao contraditório é através da organização social.
 
Porque ao contrário do estado patriarcal, de onde partia toda e qualquer iniciativa (para o bem ou para o mal), no estado de direito democrático, a sociedade é quem deve mover o estado. Portanto a única forma de colocar ordem no setor e pressionar que estado cumpra o seu papel o CROOSP tem feito o seu papel na representação de seus filiados no diz respeito às boas praticas de saúde e tem marcado pontos importantes para valorizar a categoria e participar das politicas publicas que norteiam seu destino, destacamos alguns:
 

Eventos, virada da saúde, CPI da ANVISA, Audiências Publicas, Criação da Pasta Ciência e Tecnologia em parceria com ULBRA, UNC, UBC e IBO/SNO para sustentação acadêmica, instituição do corpo jurídico, manifestações publicas e internas, etc. São pequenas ações que elevam o prestigio da categoria e como consequência recebemos "n" convites do estado e da sociedade para minimizar  dúvidas, ora convidados como peritos, ora como coadjuvante do processo social em parceria com várias instituições.  Hoje varias empresas privadas e órgãos do governo, primeiro entram em contato com o CROOSP para só depois tomar iniciativas, quer seja na contratação de pessoal ou medidas jurídicas. Quem imaginaria isso há dez anos?  

 

 

OPTICANET: Como você avalia as transformações pelas quais o segmento óptico e a optometria de forma geral, passaram em 2011?

 

O Brasil continua atrasado e um dos pilares para reverter esse processo está na educação dos mais novos e reeducação dos mais velhos. Quem já esteve fora do país, sabe o quanto isso é verdade. Não sou versado no assunto, mas arrisco dizer que a grande transformação para o bem pode ser atribuída à tecnologia. Nos dias de hoje você deixa rastros por onde passa, então, a maior malandragem é ser honesto independentemente do momento, mais dia ou menos dia a mentira não se sustenta e surge a verdade.

 

 

OPTICANET: Quais são as perspectivas e planos para 2012?

 

Um ano positivo com planos de amadurecimento da categoria profissional como segmento de saúde. Entre os grandes desafios, o maior esta na  preparação do CROOSP para que a nova diretoria que venha assumir em 2013 encontre a casa mais ordenada do quando assumimos. Faz parte do processo que a nova geração tenha melhores condições de gestão.

 

 

OPTICANET: Deixe uma mensagem aos profissionais do segmento para 2012!


Deixo aqui a mensagem que ouvi do Ministro Padilha. Participe da construção de políticas públicas do país, rumo a uma sociedade igualitária. Colabore com as entidades de classe com críticas e sugestões, faça mover o governo. No caso específico do CROOSP, entendemos que o profissional está pronto, mas enquanto categoria ainda tem um longo caminho para amadurecer, razão pela qual acreditamos ser o debate e a renovação do poder (insisto), o caminho legítimo mais curto a percorrer. Se para se profissionalizar o indivíduo fez grandes investimentos, ele deve ter mais cuidado na administração de sua categoria cobrando resultados conhecendo de perto o gerenciamento do processo. 

Fonte: Redação Opticanet

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