No
Brasil 70% dos casos de perda da visão na infância estão relacionados às
doenças congênitas desenvolvidas durante a gestação: glaucoma, catarata, alguns
casos de estrabismo e retinoblastoma ou câncer ocular. De acordo com o oftalmologista Leôncio
Queiroz Neto do Instituto Penido Burnier estas doenças devem ser identificadas logo após o parto. O
diagnóstico é feito pelo "teste do olhinho" ou exame do reflexo
vermelho realizado com um oftalmoscópio, espécie de lanterna que joga luz na
pupila do bebê. "Em olhos saudáveis o reflexo da luz no olho é vermelho e contínuo.
Quando aparece uma leucocoria, reflexo esbranquiçado ou descontínuo da
retina, indica alguma doença congênita",
explica.
O
problema é que a última PNS (Pesquisa Nacional de Saúde) realizada pelo
Ministério da Saúde em parceria com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística) mostra que pouco mais da metade dos bebês brasileiros, 51,1%,
passaram pelo teste do olhinho antes de completar o
primeiro mês de vida. Isso porque, o exame só é obrigatório no Distrito Federal
e em 16 dos 26 estados brasileiros.
Um dia inesquecível
Queiroz Neto ressalta que
pode acontecer da doença congênita passar despercebida no teste do olhinho.
Este foi o caso de Eduardo Rodrigues. A mãe, Ana P. M. Rodrigues desconfiou que
o filho não estava enxergando bem e o levou
ao oftalmologista. Queiroz Neto o diagnosticou com catarata congênita nos dois
olhos. A do olho esquerdo estava bastante desenvolvida e por isso não era
possível saber qual o resultado da cirurgia de catarata já que os olhinhos
poderiam ter outras doenças que nem sempre podem ser visualizadas pelo médico
quando a catarata está avançada. Quando Eduardo acordou da operação já estava
identificando um quadro na parede. "A cirurgia foi um sucesso. Nunca vou me
esquecer deste dia", afirma Ana. O
cuidado da mãe salvou a visão da criança, salienta Queiroz Neto. O
acompanhamento oftalmológico na primeira infância, mesmo quando o teste do
olhinho não apresenta alterações, é muito importante, alerta.
Aplicativo
A
boa notícia é que de acordo com um estudo inédito divulgado na revista Science
Advances agora os pais podem usar a câmera fotográfica do celular para
registrar importantes informações sobre a visão do bebê, além dos melhores
momentos da primeira infância. Para isso,
quem tem bebês em casa deve baixar gratuitamente o aplicativo americano CRADLE
ou White Eye Detector criado por Bryan Shaw, professor da Universidade Baylor (Texas) e começar a tirar
fotos da criança com o smartphone independente do resultado do teste do olhinho
na maternidade. Os pais podem confundir um leve embranquecimento do reflexo na
pupila, mas o aplicativo tem algoritmos que detectam até a mais sutil
leucocoria.
Prova
disso são os resultados do estudo. O White Eye Detector identificoucom 80% de eficiência os casos de leucocoria em mais de 50 mil fotos de 40
crianças tiradas em situações casuais. Para os pesquisadores esta eficácia é
maior que a do exame convencional. Isso porque, a manipulação do oftalmoscópio
demanda colaboração do bebê, distância adequada e controle de muitas outras variáveis. Além disso o tempo para notar que um bebê não tem boa visão pode significar uma vida inteira sem
enxergar. O estudo também revela que a dificuldade em perceber que a visão
encontra obstáculos na primeira infância faz com que a identificação pelo
aplicativo anteceda em média 15 meses o diagnóstico tradicional.
Teste
online
Queiroz Neto afirma que a primeira consulta oftalmológica geralmente é
feita aos 2 anos quando os pais usam óculos e aos 3 anos quando não usam. Para
viabilizar o acesso das crianças de todo o país à triagem visual o hospital
disponibiliza no site www.penidoburnier.com.br testes online autoexplicativos. O oftalmologista ressalta o aplicativo White
Eye Detector e os testes online facilitam a identificação dos problemas de
visão na infância, mas não substituem a consulta. Crianças de até 3 anos,
explica, devem ser submetidas à triagem com a carta de Snellen figuras. Nas de
4 e 5 anos pode ser utilizada a carta de Snellen de ganchos e a partir dos 6
anos a carta com o abecedário. "Nossa integração com o meio ambiente
depende em 85% da visão. Estudos mostram que a maior causa de evasão escolar é
a dificuldade de enxergar. Proteger a visão das crianças é apostar num futuro
melhor", conclui