O simples ato de coçar os olhos pode provocar uma doença oftalmológica que está entre as maiores causas de transplantes de córnea em todo o mundo: o ceratocone. Para alertar a população sobre o esse problema, a campanha Junho Violeta, criada em 2018 com o apoio da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, visa conscientizar sobre a doença, diagnostico e a importância do acompanhamento e tratamento. O ceratocone é uma alteração na córnea, que é a estrutura anterior dos olhos e funciona como uma lente para focalizar a imagem. Assim, nesta doença ocorre um afinamento e deixando a estrutura com formato semelhante a um cone. "O ceratocone pode levar a uma acentuada baixa de visão, mas, na maioria dos casos, é reversível, caso diagnosticada e tratada logo no início", explica o oftalmologista Rodrigo T. Santos, especialista em Córnea e Ceratocone e coordenador do Setor de Lentes de Contato do Hospital Oftalmológico de Brasília (HOB), empresa do Grupo Opty.
O ceratocone costuma se manifestar na infância ou na adolescência e atinge a estabilização por volta dos 30 anos. Evolui gradualmente, não apresenta inflamação aguda e é indolor. Mesmo sendo bilateral, geralmente atinge os dois olhos de maneira assimétrica, afetando mais um olho do que o outro. Os sintomas variam de acordo com o estágio da doença, sendo os mais comuns o surgimento de erros de refração, como miopia e astigmatismo, barramento da visão, baixa acuidade visual, fotofobia e dificuldade de enxergar em ambientes com pouca luz. Segundo a Cornea Research Foundation of America, a cada 100 mil pessoas no mundo, entre 50 e 200, aproximadamente, desenvolvem a patologia. No Brasil, dados do Ministério da Saúde, mostram que 150 mil brasileiros desenvolvem o problema anualmente.
A patologia ocorre em todas as raças, afeta igualmente homens e mulheres. Pessoas com Síndrome de Down apresentam maior predisposição. Entre os principais causadores do ceratocone, estão fatores genéticos - ainda que pessoas que não apresentem nenhum caso da doença na família possam desenvolver o quadro - e o hábito de coçar os olhos. Como é essencial controlar esse impulso, é preciso tratar possíveis alergias oculares, rinites alérgicas ou dermatites atópicas, que são alergias sistêmicas do organismo. Para isso, além do acompanhamento do oftalmologista, é necessário associar o tratamento com especialistas de outras áreas como alergista, pediatra, otorrinolaringologista ou dermatologista, conforme for caso. "Apesar de ter um componente genético, na maioria dos casos, a alergia ocular é um importante fator de risco, pois a fricção crônica dos olhos pode acelerar a progressão da doença. No Brasil, a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que 35% da população sofre com algum tipo de alergia e sete em cada dez desenvolvem alergia ocular. Por isso, os alérgicos precisam redobrar os cuidados e tratar a patologia para reduzir a coceira dos olhos, além de fazer consultas regulares com o oftalmologista", aponta o médico.
O ceratocone não tem cura, mas há vários tratamentos disponíveis, todos com o objetivo de prevenir a perda da visão e promover a reabilitação visual. Para diagnosticar o problema, o oftalmologista pode solicitar a topografia de córnea, que estuda a regularidade da superfície; a tomografia de córnea, para verificar a estrutura de forma tridimensional; os estudos biomecânicos da córnea e do wavefront ocular e, eventualmente, o OCT de córnea, para estudar a camada de células epiteliais. "Estes exames servem para averiguar o estágio da doença. Identificar corretamente o ceratocone possibilita avaliar a evolução e planejar o melhor tratamento para cada caso", ressalta o médico.
Se o paciente alcançar uma boa visão, só os óculos podem resolver o problema. Porém, se a visão não for satisfatória, a opção é realizar os testes de lentes de contato, que ajudam a corrigir a óptica do ceratocone e permitem uma visão mais nítida. Em casos moderados a graves, com piora das curvaturas, podem ser tratados cirurgicamente. Tanto o crosslinking - técnica considerada mais moderna para o tratamento e estabilização do ceratocone - quanto o Anel de Ferrara são tratamentos eficientes em permitir uma melhora na visão. O transplante é o último recurso, sendo necessário quando o paciente apresenta uma curvatura muito extrema, um afinamento grande ou alguma cicatriz na córnea. Dados da Associação Brasileira de Transplante dos Órgãos apontam que, dos mais de 23 mil transplantes realizados ao ano no país, cerca de 13 mil são de córnea e o ceratocone está entre as principais causas. Dos 328 pacientes inscritos no Banco de Olhos do Distrito Federal que esperam por um transplante de córnea, 106 são por ceratocone, o que representa 32% do total, a maior demanda atualmente. "Para evitar chegar a este extremo, é fundamental fazer consulta e exames de rotina com seu médico oftalmologista que, se necessário, vai encaminhar o paciente a um especialista em córnea e ceratocone. E fica o alerta: evitar coçar os olhos pode evitar muitos problemas no futuro", finaliza o Dr Rodrigo T. Santos.