Em meio a uma celebração junina em Cruz das Almas, um adolescente de 16 anos caminhava com os amigos aparentemente longe de qualquer perigo quando foi atingido por uma espada que veio do alto, oriunda de outra rua. Além de fraturas nos ossos da face e perda de vários dentes, o jovem teve um olho perfurado e, apesar de ter sido submetido a algumas cirurgias nos olhos e na face, permaneceu não apenas com deformidades, como também com baixa permanente da visão esquerda.
O caso deste paciente, atendido pelo médico oftalmologista Marcelo Rêgo no Bahia Olhos - Centro de Oftalmologia do Hospital Aeroporto, pode servir de alerta para a necessidade do cuidado com a saúde ocular em meio aos perigos - fogos de artifício, brasas de fogueira, etc - tão comuns nessa época do ano.
"Para celebrar o São João ou os gols do Brasil na Copa, é melhor evitar a manipulação de objetos explosivos, como rojões e bombas. As pessoas também não devem soprar fogueiras, pois os fragmentos de brasa podem atingir os olhos", declara Marcelo Rêgo, aconselhando a população a evitar ambientes com muita fumaça.
Muitos não imaginam, mas os casos de comprometimento da visão aumentam bastante durante os festejos juninos. No ano passado, um paciente de 34 anos atendido no Bahia Olhos, sofreu laceração ocular extensa ao soltar um foguete com a mão para o alto. "O que aconteceu foi que o foguete explodiu e estourou para baixo", conta o oftalmologista. Para tratar o problema, o médico fez uma sutura para o fechamento do olho, mas não houve como evitar a lesão corneana grave, além de catarata, baixa da pressão ocular e evolução do quadro para atrofia ocular, com cegueira irreversível.
Segundo Marcelo Rêgo, um problema muito frequente é o contato dos olhos com fragmentos (corpos estranhos) provenientes da queima de fogueiras, provocando sensação de areia e lacrimejamento. Além do incômodo, tais fragmentos podem lesar a córnea, a parede ocular ou, ainda, aderir à parte interna das pálpebras. Outra causa frequente de irritação ocular é o contato com a própria fumaça dos fogos, que pode resultar em conjuntivite e seus sintomas: ardência, vermelhidão e fotofobia.
"Problemas mais graves que podem resultar em perda da visão são as explosões próximas aos olhos, sobretudo em pessoas que insistem em soltar foguetes segurando-os com as mãos ou soltar bombas. Esses acidentes podem causar desde queimaduras nas pálpebras até lesões extensas na superfície ocular e destruição do globo ocular", alerta o especialista.
Óculos e lentes de contato
O uso de óculos comuns não protege das lesões que podem ser provocadas pelos fogos juninos. Em caso de explosão próxima aos olhos, os fragmentos das lentes podem, na verdade, contribuir para agravar as lesões. O mesmo vale para as lentes de contato, que costumam agravar os sintomas em caso de irritação ou corpo estranho. "As principais medidas a serem tomadas por usuários de lentes são retirá-las assim que perceberem qualquer desconforto nos olhos, como vermelhidão, sensação de areia ou mesmo visão embaçada e procurar imediatamente um oftalmologista", aconselha Marcelo Rêgo.
As queimaduras, mesmo que leves, atingem a córnea e podem causar a diminuição da sua transparência e comprometer seriamente a visão. Casos mais graves, com opacidade total da córnea, causam cegueira e podem também exigir transplante da córnea para o restabelecimento da visão. Quando o dano ocorre nas pálpebras, pode haver deformidades graves, com retração, perda de tecido e conseqüente comprometimento da superfície ocular, principalmente devido a ressecamento. Vários casos são tratados por cirurgia oculoplástica.
Cuidados especiais
No caso de contato de pólvora com os olhos, a orientação é lavar abundantemente com soro fisiológico, preferencialmente, ou na falta deste, com água corrente. Se os olhos forem atingidos por explosões de bombas, o melhor a fazer é ocluir o olho com gaze e procurar um serviço de emergência oftalmológica, para que seja avaliada a extensão das lesões e iniciado o tratamento imediato, que pode exigir cirurgias, retirada de fragmentos ou tecidos necróticos, além de serem prescritas as medicações adequadas. O uso de colírios por conta própria não é recomendável. "Pode piorar o quadro", conclui o diretor do Bahia Olhos.