Novo modismo entre os jovens é preocupante: usar lentes de contato coloridas em festas, nas escolas ou universidades e até mesmo durante um passeio no shopping center tornou-se símbolo de status e de estética "refinada" em algumas capitais do país. Quem não realiza acompanhamento médico para adaptar lentes de contato adequadamente pode correr o risco de ficar cego.
À exemplo do que vem acontecendo em outras capitais brasileiras, entre os meses de maio e outubro de 2008, o Hospital Universitário Bettina Ferro de Souza (UFPA), em Belém do Pará, registrou surto ocular em 30 pacientes, que deram entrada no local apresentando problemas graves nos olhos decorrentes do uso inadequado de lentes de contato - adquiridas sem orientação médica.
Dados
Dentre os 30 pacientes atendidos no Bettina Ferro, 7 (23%) pertenciam ao sexo masculino e 23 (77%) ao sexo feminino. A idade variou de 15 e 35 anos de idade, sendo que 12 destes pacientes (40%), apresentavam menos que 20 anos de idade. Em relação à procedência destes pacientes, 26 (87%) são da capital, e o restante do interior do Estado.
Nenhuma das lentes foi prescrita ou adaptada por profissional médico especializado. São lentes hidrofílicas, obtidas com finalidade estética (coloridas). Em relação a sua origem, em 10 casos foram compradas em ópticas da cidade, 5 compradas de ambulantes, 9 compradas de algum conhecido, 1 comprada em feira livre e 5 foram compartilhadas.
Após anamnese, constatou-se que 26 (87%) não apresentavam ancedentes mórbidos pessoais, 3 referiam atopia e uma paciente era portadora do virus HIV. A aferição da acuidade visual inicial, pré- tratamento, feita com utilização da Tabela de Snellen tradicional, constatou que 3 pacientes apresentavam acuidade visual entre 0,7 e 0,4; 3 pacientes apresentavam acuidade visual entre 0,3 e 0,1; sendo que a maioria, 24 pacientes (80%), apresentavam acuidade visual inferior a 0,1.
Após tratamento clínico específico, 24 (80%) apresentaram resolução do processo infeccioso, sendo que 21 receberam antibióticoterapia fortificada em forma de colirio, e 3 receberam medicacão antifúngica tópica. No decorrer do tratamento, 5 pacientes evoluiram para perfuração corneal, sendo submetidos a transplante tectônico. Em um paciente, foi realizado recobrimento conjuntival, por afinamento corneal significativo.
Na acuidade visual após tratamento, 4 pacientes apresentavam acuidade visual superior a 0,3; 6 pacientes apresentavam acuidade visual entre 0,7 e 0,4; 3 pacientes apresentavam acuidade visual entre 0,3 e 0,1; sendo que 11 pacientes, apresentavam acuidade visual inferior a 0,1, conferindo gravidade e prognóstico reservado a lesões corneais ocasionadas pelo uso inadequado de lente de contato. A acuidade visual dos pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos não foi incluida nesta avaliação.
Informações dos especialistas
De acordo com a Dra Tania Schaefer, presidente da SOBLEC - Sociedade Brasileira de Lentes de Contato, Córnea e Refratometria, tal uso pode causar graves lesões na córnea - com perda visual - e até mesmo cegueira, sendo necessária até mesmo a realização de transplante.
"A SOBLEC verificou que as lentes eram compradas em camelôs, festas, praias e até mesmo em óticas. Alertamos que a comercialização de lente de contato é proibida nesses locais, de acordo com o Conselho Federal de Medicina", explica.
Segundo Tânia Schaefer, a reação ao uso das lentes começa a surgir em torno de 48 horas. "Os principais sintomas são: olho vermelho, fotofobia, secreção, dor, irritação e baixa de visão", conta.
Para a Dra. Paula Renata Caluff, responsável pelo setor de Córnea e Doenças Externas do Hospital Bettina Ferro de Souza e membro da SOBLEC, apesar da sua aparente simplicidade, o uso de lentes de contato deve ser feito respeitando-se os critérios de forma de uso, conservação e descarte. "A úlcera de córnea bacteriana é a complicação mais temida em usuários de lente e tem relação com vários fatores tais como higiene, conservação e principalmente o uso sem orientação médica", conta.
Paula Caluff atenta que as lentes de contato não devem ser compradas em óticas, mercados ambulantes, em lojas ou pela internet. "Há necessidade extrema de fiscalização rigorosa por parte de entidades responsáveis pela saúde pública, pois é possível encontrar o produto sendo vendido livremente nas cidades brasileiras. Já alertamos a Vigilância Sanitária para evitar novos casos de lesão e também de venda irregular", finaliza.