Igual a países da Europa, como Alemanha e França, os carros do Google Street View, projeto da empresa que faz a captura de imagens de ruas em 360º, também capturaram informações de usuários compartilhadas via redes Wi-Fi no Brasil.
Quem afirma é o professor de Ciência da Computação e pesquisador da Universidade Estadual do Ceará, Pablo Ximenes. Entre as possíveis informações capturadas estão mensagens de e-mail e senhas.
A acusação está descrita no artigo ""Os impactos de privacidade em redes Wi-Fi e implicações penais no Brasil do caso Google Street View", escrito por Ximenes em parceria com a estudante de direito Líssia Melo e com o mestre em direito pela Universidade Federal de Pernambuco, Jairo Ponte.
"Analisamos o caso sob a teoria da tipicidade conglobante de Zaffaroni, onde verificamos se seria possível, no melhor dos cenários, considerar as ações da Google como lícitas. Ou seja, analisamos o caso escolhendo a teoria mais favorável para o réu. Mesmo assim, a Google não passou em nosso teste", explica Ximenes.
De acordo com Ximenes, o Google sempre usa os mesmos procedimentos em todos os seus produtos, independente do país. Segundo as investigações do trio, o Google contratou uma empresa terceirizada de auditoria para verificar o sistema de coleta do Street View. Os resultados da análise foram aplicados a todos os carros. "Nem precisa dizer que a auditoria corroborou a existência da captura de dados de redes sem fio", afirma ele.
Para Ximenes, a captura dos dados foi feita de forma voluntária. Um indício seria o registro da patente "Mecanismo de aproximação de localização baseado em redes sem fio", registrada pelo Google em janeiro de 2010 nos Estados Unidos. Entre outros, a patente descreve como "as estimativas de localização podem ser obtidas pela observação/análise de pacotes transmitidos ou recebidos pelo ponto de acesso".
Segundo o pesquisador, com esses dados em mãos, o Google poderia aprimorar seu algoritmo de localização.
"A desculpa de que o código de captura teria passado despercebido é no mínimo ingênua. O grande volume de dados gravados por si só seria suficiente para se perceber que algo estava errado. A captura de quadros beacon (o que a Google alega ter tido a intenção de capturar) requer bem menos espaço de armazenagem do que a Google de fato usou para guardar seus registros", afirma ele.
O artigo também mostra como os engenheiros do Google poderiam ter identificado a captura indevida.
Denúncia à Justica
Com as informações em mãos, Ximenes apresentou, no último dia 5, uma notícia-crime à Promotoria Estadual de Combate aos Crimes Cibernéticos do Estado de Minas Gerais.
Agora, ele pretende notificar o Ministério Público nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, além da União. "A questão do caso Google Street View merece uma investigação e um processo penal, e não deve passar impune", afima ele.
Em maio de 2008, Ximenes encontrou uma falha no sistema de encaminhamento de mensagens do Gmail. Em outubro do ano passado, ele foi listado no Hall da Fama de Segurança do Google.