Existem empresas que produzem óculos. E existem os que esculpem identidade. Raffael Sharkiiz pertence ao segundo grupo. Num mercado que muitas vezes corre atrás do brilho das grandes marcas, ele segue na contramão: desacelera, observa, toca, entende o rosto como paisagem e transforma cada peça em uma extensão da alma de quem a veste. Sua trajetória começa muito antes da marca ganhar nome nasce da estética, da vivência e de um olhar treinado para perceber histórias onde o mundo só vê formatos.
Hoje, Raffael é uma das vozes mais potentes da nova geração de lunetiers brasileiros. Um lunetier que desenvolve técnica, emoção e propósito, influenciado pela alfaiataria eyewear e guiado pelo valor do feito à mão. Vencedor do Prêmio Novos Lunetiers 2025 e discípulo direto do designer Lunetier Filipe Diniz, ele representa um Brasil que cria com profundidade, tempo e intenção e que conquista espaço no cenário internacional não pelo volume, mas pela autenticidade.
Leia a entrevista completa e mergulhe no universo de um criador que transforma cada olhar em obra única.
SerjãOÓptico: Raffa, conta pra gente: onde tudo começou?
Raffael Sharkiiz: Minha jornada no universo óptico nasceu da combinação entre curiosidade estética, desejo de criar algo com identidade e a vontade de oferecer produtos que unissem design, qualidade e propósito. 
Tudo começou durante o período em que vivi por seis anos nos Estados Unidos, mais precisamente na Califórnia. Foi uma fase muito importante da minha vida  uma experiência que ampliou minha visão de mundo e despertou em mim o interesse pelo estilo de vida californiano: leve, criativo, despretensioso, mas com forte senso de autenticidade. Essa vivência foi o ponto de partida para o que viria a se tornar a SHARKIIZ. 
Ao retornar ao Brasil, decidi me estabelecer em Fortaleza, minha cidade natal, onde minha família já possuía tradição no mercado de jóias e ótica de luxo. Cresci cercado por esse universo observando o cuidado com os detalhes, a precisão técnica e a importância de oferecer algo realmente diferenciado ao cliente. Foi nesse ambiente que comecei a perceber como os óculos podem ir muito além da função visual: eles expressam estilo, personalidade e até emoção. 
Em 2010, fundei a SHARKIIZ com um propósito claro: criar uma marca que unisse sofisticação, design autoral e exclusividade, mas com uma proposta de luxo acessível. Desde o início, quis que cada modelo refletisse minha visão sobre o equilíbrio entre estética e técnica peças com identidade, produzidas em edições limitadas e desenvolvidas com materiais de altíssima qualidade. Ao longo do tempo, fui me aprofundando também no trabalho artesanal e técnico da ótica. O olhar do lunetier, aquele que entende tanto de design quanto de estrutura e conforto passou a guiar minha produção. Acredito que a verdadeira excelência está nos detalhes: na curvatura da haste, no encaixe perfeito, na textura do acetato, no toque humano em cada processo
SerjãOÓptico:  Como você enxerga o movimento que temos chamado de Alfaiataria Eyewear aqui no Brasil?
Raffael Sharkiiz: Vejo esse movimento como um divisor de águas. A Alfaiataria Eyewear representa o resgate do fazer artesanal e da personalização como forma de expressão. Assim como uma peça de alfaiataria feita sob medida, os óculos feitos à mão carregam a essência de quem os usa. Esse movimento vem ganhando força no Brasil porque o público está cada vez mais consciente da importância de consumir com propósito. O consumidor quer exclusividade, autenticidade e qualidade e é exatamente isso que o trabalho do lunetier entrega.
SerjãOÓptico: O consumidor tem buscado e está preparado para comprar os óculos personalizados e feitos sob medida?
Raffael Sharkiiz: Sim, e de forma crescente. O consumidor de hoje entende que exclusividade vai muito além de uma marca famosa. Ele quer participar do processo, quer saber quem está por trás da criação e como aquele produto foi feito. Os óculos sob medida trazem uma experiência totalmente nova, o cliente se torna coautor da peça. Ele escolhe o material, o formato, a textura. Isso cria uma conexão emocional que um produto de vitrine jamais proporciona.
SerjãOÓptico: Fale sobre a experiência de ser um dos primeiros alunos do mestre Filipe Diniz e ter sido vencedor do Prêmio Novos Lunetiers 2025, na categoria "Melhor Criação", na maior feira da América Latina, a Expo Óptica .
Raffael Sharkiiz: Ter sido aluno do Filipe Diniz foi uma honra e um marco na minha trajetória. Ele é uma referência no Brasil e no mundo, alguém que elevou o nível da arte de fazer óculos. Com ele aprendi não só técnicas de construção e acabamento, mas também uma filosofia a de que cada peça carrega alma, tempo e intenção. Receber o Prêmio Novos Lunetiers 2025, na categoria "Melhor Criação", foi uma emoção indescritível. É o reconhecimento de um trabalho que nasceu do amor pelo detalhe e pelo olhar humano. Esse prêmio simboliza que o Brasil tem, sim, um espaço legítimo no cenário internacional do eyewear artesanal. 
SerjãOÓptico: Quais conselhos você daria para quem quer seguir a trajetória de ser um Lunetier?
Raffael Sharkiiz: Primeiro: tenha paciência. O trabalho artesanal exige tempo, estudo e humildade. Cada curva, cada polimento, cada encaixe conta uma história. Segundo: desenvolva seu olhar. O lunetier precisa entender o ser humano, suas proporções, seus traços e emoções. E por fim: estude muito e pratique todos os dias. O ofício do lunetier é uma arte viva, em constante aperfeiçoamento.
SerjãOÓptico: Cada rosto é único, cada olhar tem uma personalidade. Quais são os elementos que você observa em cada cliente para traduzir sua identidade em um design de óculos sob medida?
Raffael Sharkiiz: Eu começo observando o formato do rosto, claro, mas vou além. Gosto de perceber a postura, o estilo, o tom de voz, o olhar. Tudo comunica. Às vezes, um simples gesto já me revela se a pessoa precisa de algo mais ousado ou mais discreto. Meu objetivo é criar harmonia: o óculos deve complementar o rosto, não competir com ele. Quando a peça se integra ao olhar da pessoa, é sinal de que o design encontrou sua verdade.
SerjãOÓptico: O trabalho artesanal exige tempo, precisão e sensibilidade. Quais materiais você mais gosta de trabalhar: acetato, madeira, chifre natural? E o que cada um representa dentro da sua filosofia de criação?
Raffael Sharkiiz: Tenho um carinho especial pelo acetato de celulose, principalmente o de origem natural, feito a partir do algodão. É leve, resistente, sustentável e me permite explorar cores e texturas incríveis. Já o chifre natural é nobre e único: cada peça tem um desenho próprio, impossível de reproduzir. Ele representa a exclusividade na sua forma mais literal. Para mim, o material é uma extensão da personalidade de quem vai usá-lo. Escolher o certo é parte essencial da criação. 
SerjãOÓptico: Num mercado dominado por grandes marcas e produção em massa, como você enxerga o espaço (e o valor) da confecção manual de óculos personalizados hoje? O público já entende a diferença entre um produto de autor e um de vitrine?
Raffael Sharkiiz: O espaço está crescendo e o valor, sendo cada vez mais reconhecido. O consumidor está aprendendo a olhar além do logotipo. Ele percebe a diferença no conforto, na durabilidade e principalmente na autenticidade. Um óculos feito à mão carrega alma. Ele tem história, imperfeições bonitas, detalhes que revelam o toque humano. Isso não se encontra em um produto feito em série. Ser lunetier, hoje, é preservar o ritmo da criação e o valor do feito à mão em um mercado acelerado, onde os produtos em série se tornaram cada vez mais descartáveis. É manter viva a autenticidade do ofício artesanal em um tempo que, muitas vezes, esquece o verdadeiro significado de criar com propósito.
SerjãOÓptico: Seus óculos parecem carregar algo de atemporal, quase como uma extensão do rosto de quem os usa. Como você imagina o futuro do mercado eyewear artesanal e o papel do lunetier na preservação desse movimento?
Raffael Sharkiiz: Acredito que o futuro do eyewear artesanal será cada vez mais humano e consciente. As pessoas estão buscando se reconectar com a essência real dos produtos  valorizando o tempo, o propósito e a história por trás de cada criação. Vejo o lunetier como um verdadeiro guardião do olhar, alguém que preserva a autenticidade e mantém viva a alma do trabalho manual, realmente "feito à mão". A tecnologia certamente continuará evoluindo, mas o toque humano permanecerá insubstituível. O futuro do nosso ofício está justamente nesse equilíbrio entre inovação e tradição, entre o fazer com as mãos e o criar com o coração. 
SerjãOÓptico: Rápidas do Raffa  "Vê logo, falo logo"
Óculos são: extensões da personalidade e expressão de identidade. 
Na minha visão: o design só tem valor quando desperta emoção. 
O olhar de estar sempre atento: é o que me move a buscar novas formas, materiais e histórias. 
A Ótica do futuro vai: unir o artesanal ao digital, sem perder o toque humano. 
Pelas minhas lentes vejo: um mundo onde cada olhar tem sua própria moldura única, autêntica e feita com alma.
SerjãOÓptico
Especialista em tendências eyewear