Para falar do Ricardo, tenho que começar falando do ilustre Sr. Jaime Lorente.
Um ícone na arte da Alfaiataria Eyewear, muito antes deste termo existir. De ascendência espanhola, iniciou em óptica ainda menino, com apenas 12 anos de idade. Mas, o mais interessante foi o motivo. Lá na cidade de São Caetano, no estado de São Paulo, ele quis fazer um telescópio e saiu a procurar lentes. E foi aí que ele entrou pela primeira vez em uma óptica e "de lá" nunca mais saiu. Ficou de vez no segmento.
O menino quis aprender o ofício. E aprendeu. Depois quis abrir a sua própria óptica. E abriu. Nada menos que na cidade de São Paulo, em plena avenida Paulista. E ali ficou por muitos anos a SIR (sim, Sir ao melhor estilo britânico) Ótica Foto.
E foi nesta primeira loja, lá nos anos 80 que, Sir Lorente, teve a ideia de fazer óculos feitos à mão.
Ele, que sempre foi um autodidata, além de muito habilidoso, criou sua própria técnica e suas próprias ferramentas para fazer os óculos feitos à mão.
Nesta época, não existia nem curso, nem quem ensinasse essa arte da Alfaiataria Eyewear.. Mas ele trazia na sua ancestralidade, no seu DNA, a herança do pai Gines Lorente. O artista que chegou no Brasil após o término da guerra civil espanhola e que esculpiu estátuas e pintou os afrescos nas mansões paulistanas. Antes disso, ainda na Espanha, ele foi responsável por um grande feito: restaurar obras no Parque Güell de Antoni Gaudí.
Bom, e agora, depois desta belíssima introdução, podemos falar de Ricardo. A terceira geração desta artística, visionária, genial família Lorente.
O filho do Sr. Jaime, e neto do Sr.Gines, é arquiteto de formação e trabalhou muitos anos com artes plásticas. Foi gravurista numa galeria de arte.
Herdou do Sr. Jaime junto com a inquietude e a genialidade, moldes de metal em forma de coração, flor, aviador. Usou estes moldes para criar óculos para o uso pessoal. Mas, claro, não se deu por satisfeito, precisava conseguir o acetato e para isso contou com os amigos Maurício e Celso Ribeiro que sempre que viajam para fora do Brasil, colaboravam trazendo sobras de placas de acetato das grandes fábricas que visitavam. Assim, Ricardo conseguiu os primeiros pedaços de acetato e algumas charneiras usadas. "E por anos, seguimos na Paulista, juntos, no mesmo endereço, eu e meu pai, fazendo óculos e dando início a um ofício muito bonito." relembra Lorente.
Em casa, pai e filho tinham equipamentos como serra tico-tico e lima. E era assim que iam dando formato e produzindo os óculos, na mão e na raça.
E hoje, mesmo com equipamentos mais sofisticados para o processo de produção, Ricardo confidencia que a técnica do passado, utilizada pelo seu pai, ainda é muito usada por ele.
E, como não poderia deixar de ser, com o passar do tempo, o trabalho do Sir Lorente pai e Sir Lorente filho foi ficando cada vez melhor, sendo valorizado e tomando novos rumos.
"Hoje temos um trabalho reconhecido. São três frentes de negócios: coleções e marcas próprias, design e a produção para outras marcas e o feito à mão, que é um trabalho exclusivo. Atendemos um público seleto e exigente." destaca Ricardo Lorente.
E Ricardo ainda declara: adoro desenhar um óculos, criar algo que tenha sua personalidade, esculpir o acetato, e ver a felicidade do meu cliente recebendo uma linda peça exclusiva. Isso me motiva muito, porque cada dia, cada cliente é um novo desafio.
E encerro o capítulo de hoje, o terceiro da série sobre Alfaiataria Eyewear, com esta sequência de aspas do nosso cavaleiro notável Ricardo Lorente.
"Meu pai partiu em 2022, mas deixou seu legado. Hoje sigo com seus ensinamentos e com este trabalho primoroso, desenvolvendo trabalhos autorais e exclusivos."
"Sou Arquiteto e urbanista, mas atualmente me dedico exclusivamente aos óculos. Até me chamam de arquiteto dos óculos."
"A profissão de Lunetier é uma novidade aqui em nosso país. Para esculpir uma placa de acetato é preciso ter muito conhecimento, habilidade manual, dominar técnicas construtivas de um óculos, o conhecimento dos materiais, do maquinário e ferramentas.
Mas, principalmente, ter o um estilo próprio, autoral."
"Eu vendo algo que não existe, uma ideia. Quando esta ideia se concretiza, ela vira óculos. E o que nós sempre fizemos e dominamos, é o processo de fazer óculos únicos para o cliente."
"E o mesmo acontece na parceria com a CAX SPECS. Os modelos se repetem, mas as cores nunca. Isso é também um tipo de personalização. A partir daí, eu, junto com a Sagui Óculos, desenvolvi uma chapa de acetato com cores exclusivas e personalizadas."
Obrigado Ricardo Lorente por compartilhar conosco a sua história, e fazer de mais este capítulo sobre Alfaiataria Eyewear tão emocionante e inspirador.
E a história do Projeto Cax Fígaro continua em um capítulo, à parte. Ela será contada na próxima etapa, em uma série que vai falar dos óculos autorais, artísticos e artesanais.
SerjãOÓptico